Clube dos 24%

Art. 1º: Em razão do crescimento de seu corpo de associados, este Clube, anteriormente denominado "dos 16%", por meio do presente instrumento de alteração estatutária passa a denominar-se "Clube dos 24%".

Mauro Chaves, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Art. 2º: Os integrantes deste Clube reiteram que jamais foram entrevistados por qualquer instituto de pesquisa de opinião, nem conhecem quem quer que seja que já tenha sido entrevistado por algum instituto de pesquisa de opinião, ou já tenha ouvido falar da existência de alguma pessoa que já tenha sido entrevistada por algum instituto de pesquisa de opinião, que tenha manifestado sua aprovação a quem anunciam como ainda detentor de 76% de opinião favorável da população.

Art. 3º: Os integrantes deste Clube consideram todos os cidadãos pessoas comuns, obrigadas, igualmente, a obedecer às leis e a manter a decência no exercício de cargos públicos, sem deles se aproveitar para favorecer parentes e/ou apaniguados - nestes incluídos eventuais namorados de netas -, independentemente dos cargos que políticos veteranos tenham ocupado na República, ou da oligarquia regional que tenham fundado, ou do coronelismo eletrônico que tenham comandado, ou da profusão de gestores de populações miseráveis que tenham conseguido colocar no poder durante décadas, inclusive com a utilização, atualizada para efeitos eleitorais, de formas de agradar ao povaréu que se usavam na Antiguidade romana, com festivos programas do tipo cachaça et circenses, levados aos bairros mais pobres e populosos.

Art. 4º: Os membros deste Clube consideram que tão repulsivo quanto o desrespeito à liberdade de expressão, assegurada pela Constituição, é o acumpliciamento corporativo, que pela demora em reverter a censura prévia a faz cumprir seu real objetivo, que é o de impedir - pelo esfriamento do assunto na mídia e consequente arrefecimento de mobilizações de protesto - a transmissão de informações, de interesse da sociedade, sobre bandalheiras perpetradas por poderosos da República, com os recursos extraídos do bolso dos escorchados cidadãos contribuintes.

Parágrafo único: Os integrantes desta associação consideram que importa menos o direito de os jornalistas darem informações à sociedade do que o direito que esta tem de recebê-las.

Art. 5º: Este Clube se recusa a considerar "quase indigente" um cidadão que exerce a atividade de caseiro e como tal é um trabalhador como qualquer outro, digno de respeito e com direito à preservação de seus sigilos bancário e fiscal, sem que autoridade alguma possa ter acesso a suas contas bancárias sem a devida autorização judicial.

Art. 6º: Este Clube atesta que a empresa Petróleo Brasileiro S/A, mais conhecida por Petrobrás, foi criada em outubro de 1953, e não em 2003.

Art. 7º: Este Clube considera que as decisões importantes sobre o sistema de exploração das riquezas naturais do País devem se basear em projetos de lei discutidos amplamente nas duas Casas Legislativas, com inteira liberdade de opinião - inclusive divergente - dos representantes da sociedade junto ao Poder Legislativo, sem imposições ou ameaças de outro Poder, e muito menos a tentativa de jogar à execração pública quem quer que discorde do afogadilho eleitoreiro com que se pretende deliberar sobre questões que só terão implicação prática daqui a mais de uma década.

Art. 8º: Este Clube repudia a tentativa de associar sentimentos de patriotismo a opções governamentais mais motivadas por pressa eleitoral do que por fundamentações técnicas, assim como rejeita o aproveitamento de importantes datas cívicas nacionais para associá-las a projetos políticos governamentais de impacto.

Art. 9º: É da lembrança dos membros deste Clube o fato de um ex-chefe de Estado e governo já ter conclamado a população a sair às ruas de verde e amarelo, para manifestar sua adesão a determinada proposta governamental, o que resultou no esgotamento dos estoques de pano preto nas lojas do País, uma vez que tecidos negros passaram a cobrir as casas, os prédios, os carros e as pessoas por todo o território nacional.

Art. 10º: Este Clube discorda da afirmação segundo a qual o País, antes, não se fazia ouvido e era alvo de chacota internacional, enquanto hoje é admirado e acatado no exterior - pois o que ocorre é justamente o contrário: no que concerne a certos comportamentos pessoais cupulares, se antes havia sobriedade e elegância consentâneas à responsabilidade de condutor maior da República, hoje há uma múltipla avacalhação de linguagens, gestos e posturas, de todo incompatíveis com a majestade do cargo, o que, somando-se às gafes constantes e abissais, tem induzido - isso sim - a chacotas contra o País.

Art. 11º: Sobre a posição do País em negócios internacionais, este Clube acha que temos sido muito dadivosos, sem exigir o equilíbrio da reciprocidade, quer revendo acordos só em favor de parceiros (não nossos), quer aceitando protecionismos que barram nossos produtos, quer engolindo o péssimo tratamento dado a cidadãos brasileiros com atividades nos países vizinhos, quer não reagindo a ocupações manu militari de propriedades de empresas brasileiras.

Art. 12º: Este Clube avalia que o comércio internacional tem sido balizado pelas barbas brancas e generosas de nosso Papai Noel Mercosul (Papanomer), que nada vende, tudo dá e tudo compra - inclusive armamentos bilionários há muito encalhados no mercado bélico mundial.

Art. 13º: Este Clube abomina o fato de, num total de 183 países, o nosso ser o que exige o maior (sim, o maior) número de horas trabalhadas para pagar ao Fisco - tendo como contrapartida a qualidade dos serviços públicos que bem conhecemos.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor. E-mail: mauro.chaves@attglobal.net

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