Coitada da Petrobrás

Ao analisar a viabilidade dos possíveis investimentos na Petrobrás, havia um “otimismo sistemático” que levava a superestimar intencionalmente a rentabilidade dos projetos da estatal. Nesse sistema, as projeções adotadas na avaliação inicial nunca se confirmavam. Não por incompetência, mas porque era exatamente isso o que se buscava - errar para mais deliberadamente. Esse é, em resumo, o conteúdo do mais novo escândalo na gestão da Petrobrás durante os governos petistas, revelado pela denúncia de alguns funcionários da estatal aos conselhos de administração e fiscal, conforme noticiou o jornal Valor.

O Estado de S.Paulo

10 Abril 2016 | 03h00

Segundo a denúncia, já em 2014 a diretoria executiva da Petrobrás tinha conhecimento de que a rentabilidade de seus 59 maiores projetos em andamento estava inflada em US$ 45 bilhões. No momento de sua aprovação, os projetos tinham previsão de retorno de US$ 109 bilhões. No entanto, havia “erros” nas premissas utilizadas para estimar prazo, produção, custo operacional e investimento.

A discrepância de US$ 45 bilhões entre a previsão inicial e os novos cálculos feitos em 2014 não era consequência da oscilação do preço do petróleo, até mesmo porque esse período é anterior à queda no preço do barril. A redução da estimativa de rentabilidade de US$ 109 bilhões para US$ 64 bilhões refere-se a fatores gerenciáveis, cuja análise - segundo a denúncia - foi deliberadamente negligenciada. Dos US$ 45 bilhões descontados da rentabilidade estimada, US$ 34 bilhões (75%) ocorreram nos projetos de exploração e produção, áreas - como se sabe - bem vulneráveis à corrupção.

A descoberta da rentabilidade real, tão díspar dos cálculos iniciais, não foi resultado de um estudo pontual. A discrepância consta de relatórios elaborados periodicamente pelas gerências e diretoria da Petrobrás, mas tais relatórios estranhamente nunca chegavam ao conselho de administração. Por esse motivo, os documentos agora enviados aos conselhos de administração e fiscal têm um caráter de denúncia.

Nesse sistema de deliberado otimismo no estudo para aprovação dos investimentos da Petrobrás, eventuais pareceres mais cautelosos eram ignorados nas decisões da diretoria ou tinham seu conteúdo “blindado” por gerentes, não sendo anexados à versão final do projeto. Chama a atenção que, conforme relatam os funcionários autores do estudo enviado agora aos conselhos de administração e fiscal, mesmo depois de dois anos da Operação Lava Jato, ainda permanece vigente na estatal esse sistema de otimismo exagerado nas previsões.

O teor da denúncia é grave e revela dolo na gestão. Não se trata de prejulgar, mas ao mesmo tempo não se deve tapar o sol com peneira. É preciso investigar a denúncia apresentada no contexto da gestão da Petrobrás sob a administração petista. Não é “apenas” mais um escândalo. A denúncia revela uma das facetas desse complexo sistema de corrupção na maior estatal brasileira.

Sob o discurso triunfalista de ampliação da produção de petróleo, o que se fazia era coisa muito diferente dos interesses nacionais. De forma dolosa - é o que indica a denúncia -, aprovavam-se projetos com base em estudos que inflavam deliberadamente a rentabilidade. Com isso, fazia-se rodar a máquina de contratações e negócios pouco transparentes - esse fértil campo para a corrupção tão bem conhecido pelo PT e os partidos da base aliada.

Os números não deixam espaço para dúvidas - o PT faz muito mal à Petrobrás. Seu discurso pseudonacionalista simplesmente ludibria os brasileiros. É vergonhoso o resultado dessa gestão de ampliação deliberada das expectativas de rentabilidade. A Petrobrás tem hoje uma dívida bruta de US$ 126,2 bilhões para um caixa de US$ 25 bilhões. Urge, portanto, investigar essa nova denúncia com rigor. Os indícios são de que o sistema de locupletamento ainda continua vigente, mesmo depois de tantas promessas petistas de uma nova moralidade na estatal. Ao que parece, enquanto o PT estiver no poder, será noite para a Petrobrás.

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