Com os nervos à flor da pele

Os brasileiros são pessoas especiais, cordatas, da paz. Do contrário, seria impossível imaginar o caos em que estaríamos se a cada desmando, a cada imposição governamental que recebêssemos houvesse uma reação imediata, um protesto, uma manifestação. Noutros lugares do planeta já vi cidades se rebelarem por causa da elevação do preço do pão. Aqui, não, cada um emite a portaria que bem entende, legisla com o autoritarismo próprio aos ditadores, como se o mandato lhe concedesse o poder divino sobre tudo e todos. Ninguém pergunta nada a ninguém, não se fazem consultas populares, não se abre o diálogo à população, de verdade.

ROBERTO DUAILIBI, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2015 | 02h55

Quando fazem consultas populares, não levam em conta os verdadeiros anseios da população, usam as estatísticas da forma mais conveniente para justificar atos, e por aí vai. Vimos quanta mentira se disse na última campanha eleitoral e quanto ódio essas mentiras estão causando. O certo é que, para mim, nenhum governo tem o direito de promover o estado de nervos em que estão as pessoas.

É impressionante, por tudo isso, a capacidade de produzir más notícias. A cada dia uma avalanche de ameaças de novos impostos, de descobertas de novos episódios de corrupção, de novos limites a que temos de nos submeter, de mudanças em nossa vida. Vejam o caso de São Paulo. Não bastassem os sustos diários com a sanha arrecadadora que vem de Brasília, somos todos os dias apanhados de surpresa por medidas como novos limites de velocidade, fechamento de avenidas, faixas de ônibus em locais sem a menor precisão, ciclovias igualmente mal postas e até inseguras.

Não sou contra ciclovias ou faixas de ônibus. Nem eu nem nenhum cidadão de bem e racionalmente moderado pode estar contra isso. São alterações viárias necessárias e básicas a qualquer metrópole, mudanças importantes e de que São Paulo precisa, sem dúvida. O que condeno são os excessos, a falta de planejamento, a medida no afogadilho, o gasto exagerado e feito como se os cofres não tivessem limites. Tudo isso, invariavelmente, afeta a vida de todos nós.

Mas vejo, de novo, como são cordatos os brasileiros. Diante dos novos limites de velocidade, do estreitamento das pistas, das restrições de tráfego, os paulistanos seguem ordeiramente e ainda com o máximo de cuidado para não cair na máquina de multas que a quase todos contempla a nossa Prefeitura.

Ando muito por muitos lugares, converso com as pessoas. Percebi, por exemplo, que nos últimos tempos se instalou um pessimismo geral, um quadro de desolação. As pessoas deixaram de reclamar só de Dilma para simplesmente reclamarem da vida, lamentar as coisas. É muito triste ver um povo tão criativo, trabalhador e ordeiro submetido a isso.

Noutro dia fui a uma audiência dessas que a Prefeitura de São Paulo está fazendo para discutir o Plano Diretor. Uma ação para justificar, depois, medidas amargas, para usar expressão da moda. Fiquei muito triste com tudo o que vi. Primeiro, vi pessoas que acreditam na eficácia desse mecanismo, pessoas desesperadas diante do quadro que se avizinha, de transformações em sua vida sem que nada possam fazer efetivamente. As secretarias, instâncias de governo e os partidos de apoio às medidas levam a esses encontros grupos organizados, claques, todos com camisetas com palavras de ordem, como se houvesse uma guerra declarada a quem tem alguma posse, como se o novo plano fosse representar o fim de benesses para quem a vida toda lutou para viver dignamente. É, portanto, uma luta desigual e que pelo formato, além de não ser democrática, se torna um palco de agressividade.

Do outro lado vi pessoas de todos os matizes, senhoras, idosos, trabalhadores, desempregados, pais de família, gente simples querendo só que não se mude a situação, que se mantenha da forma como está a região onde mora há tantos anos. Será que os administradores e supostos planejadores já se perguntaram se essas atitudes de mudança são de fato necessárias? Numa cidade com tantos contrastes, tanto por fazer, com áreas degradadas e abandonadas à procura de alguém que as transforme em moradia popular ou num parque, surgem ideias que preveem, por exemplo, a desapropriação de quem já está há anos ou décadas instalado.

Em países civilizados a convivência do antigo e do moderno forma cartões-postais; em São Paulo os governantes preferem afrontar os cidadãos, em vez de buscar o que parece ser o mais razoável: corrigir as regiões degradadas, limpar as paredes da cidade, resolver a buraqueira do asfalto, devolver a felicidade à população.

Há locais que estão à mercê da sorte, sofrem com alagamentos constantes; outras, como a Celso Garcia, a Avenida Santo Amaro, foram abandonadas. Por que não gastar tempo, energia e recursos para recuperar esses locais, buscar soluções para a chamada cracolândia, transformar áreas do centro velho? Por que insistir em incomodar as pessoas, mexer com o que está estabelecido? Se alguém mora num lugar, é porque o escolheu. Pode ser por conveniência ou por opção de vida, mas em torno daquele espaço essas pessoas fazem suas compras, tomam suas conduções. É ao redor dali que têm seus amigos, parentes e vizinhos, construíram relacionamentos pessoais, comerciais, de trabalho, etc. Por que não levam tudo isso em conta?

Chegamos, infelizmente, a um ponto em que tudo parece ruim. As pessoas estão num pessimismo que vi poucas vezes na vida. Quem tem dinheiro não compra nada, não investe (ou compra dólar); quem não tem entra em desespero. Os empregos estão minguando e as condições gerais, piorando. Somos uma nação cujo sentimento passou a ser de medo, de preocupação em relação ao futuro. Pior: nossos governantes seguem na mesma toada, agindo sem o menor senso de racionalidade, desmontando o que está feito e ignorando o que há anos precisa de reparo. Será que algum dia viveremos em condições equânimes, justas, com a dignidade e o respeito à tranquilidade do cidadão balizando as decisões de nossos governantes? 

* ROBERTO DUAILIBI É PUBLICITÁRIO

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