Começa a cair a ditadura perfeita?

Nas ideias e no modo de agir, Obrador não se assemelha à demagogia populista do tipo PT

Flávio Tavares, jornalista

07 Dezembro 2018 | 04h30

A posse, dias atrás, do novo presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, cientista político de formação marxista, mas aberto e sem dogmas, eleito pelo esquerdista Movimento de Regeneração Nacional (Morena), leva a perguntar: será o começo do fim da “ditadura perfeita”, lá implantada há, pelo menos, 70 anos?

A expressão “ditadura perfeita” é do peruano Mário Vargas Llosa, criada nos anos 1980 para designar o sistema político mexicano. Diferente da ditadura do “partido único” do totalitarismo, é outra, de novo tipo. Mais inteligente, cínica e sibilina, é a ditadura do “único partido” autorizado a vencer eleições num país democrático, nominalmente livre e multipartidário.

Morei seis anos no México como exilado político, na década de 1960-70, e comprovei a contradição que, depois, Vargas Llosa chamou de “ditadura perfeita”. A crítica ao governo era aberta, ampla e contínua, mas o partido governamental reunia (várias vezes ao ano, todos os anos) de 500 mil a 1 milhão de pessoas que ouviam e aplaudiam ardorosamente o presidente da República defronte ao Palácio Nacional.

Dizendo-se herdeiro da Revolução agrária e libertária de Emiliano Zapata e Pancho Villa de 1910, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) ganhava toda eleição, na urna ou na fraude, com votos ou sem votos. Todos votavam no PRI - do povo humilde, vítima da corrupção governamental, aos intelectuais críticos do regime em que o presidente da República é um monarca absolutista. “Não adianta, o PRI frauda e ganha…”, lamentavam os oposicionistas ao votar no partido governamental.

A visão oligárquica da “ditadura perfeita” não desapareceu nem nos dois mandatos presidenciais (já nos anos 2000) em que o centro-direitista Partido Ação Nacional (PAN) esteve no poder. A simulação atenuou-se, mas continuou - política externa independente, ampla liberdade na pesquisa acadêmica, nas universidades, nas artes e na expressão individual de ideias (conquanto não ameaçasse o poder), junto a camuflada intervenção na imprensa e aberta submissão do rádio e da televisão. E como corolário final, sufocante controle dos resultados eleitorais.

Tudo isso encobria a profunda corrupção em todos os níveis - do guarda de trânsito nas ruas aos atos dos governos municipais, estaduais ou federal.

Desde 1.º de dezembro, com a posse do novo presidente da República, o longo ciclo da “ditadura perfeita” pode ter começado a se romper definitivamente. Marxista sem dogmas e professor de ciência política, seus vários livros analisam a estrutura do poder naquele país. Experiente, governou a Cidade do México e lá implantou o que promete repetir como presidente: após os primeiros dois anos e meio, convocará um referendo para que o povo defina se ele deve ou não continuar.

“El pueblo pone y el pueblo quita” - ou “o povo põe e o povo tira” -, disse ao tomar posse. Quando governou uma das dez cidades mais populosas do mundo, foi aprovado por 90%, ao moralizar a polícia e o corrupto aparelho estatal, diminuir a poluição urbana, organizar os transportes e a educação infantil.

Agora os desafios serão maiores, como reconheceu. Combater a corrupção e a impunidade, separando o poder político do poder econômico e, nele, o brutal narcotráfico. Cinco meses atrás, ao vencer a eleição, ele formou os Foros de Pacificação, grupos de cidadãos em busca do “reencontro nacional”, que lembram os da África do Sul após o fim do apartheid, em que a Justiça e a reconciliação substituíram a vingança. Mas não reabrirá processos antigos por corrupção. Nos últimos 30 anos, cerca de 60% dos investimentos no México vieram da “lavagem de dinheiro” do narcotráfico…

O crime organizado “legalizou-se”, já é parte da economia e não há como mexer no ninho de marimbondo que virou abelha e até produz mel. Mas avisou: exigirá plena honestidade “em tudo” - nas transações entre o público e o privado ou na proteção ambiental, com um detalhe que comunga com o papa Francisco: “Não haverá transgênicos”.

Criticou a chamada economia neoliberal baseado em dados concretas, não em caolhas visões ideológicas. A estatal Pemex já foi a quinta produtora mundial de petróleo, com 3,7 milhões de barris diários, e hoje, “após as reformas ditas liberais”, vai pouco além de 1 milhão diário, obrigando o México a importar gasolina.

Tal qual o Brasil, o México vive profunda crise econômica e ética, em anos de corrupção institucionalizada agravada pelo narcotráfico, um “Estado paralelo” com exércitos armados. Até aqui, ele denunciou tudo isso e até mais. Agora terá de enfrentar diretamente e vencer.

Pronunciadas em espanhol, as iniciais do seu nome, AMLO, como é conhecido, têm o som e o significado de “ame-o” e até isso colaborou para sua folgada vitória eleitoral. Em vez de “reivindicação” (como é hábito nas chamadas “esquerdas”), ele preferiu a “regeneração” da velha ética de 1910 do revolucionário Zapata. Nas duas eleições presidenciais anteriores, em que “perdeu” tendo mais votos, AMLO foi incontestável vítima de fraude e, assim, saberá medir o poder da ética.

Nas ideias e no modo de agir, AMLO se parece mais com os governantes socialistas e social-democratas da Europa Ocidental do que com a demagogia populista do tipo PT no Brasil. O período presidencial no México é de seis anos, sem reeleição, e ele governará até 1.º de dezembro de 2024. Em 2021, antes de cumprir metade do mandato, indagará ao povo se ele próprio deve seguir no poder, o que ninguém no Brasil jamais se atreveria sequer a pensar.

A não ser que, aqui, comecem a cair as imperfeições da democracia, algo que, a partir de 2019, nem um sábio oráculo sabe prever.

*JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA EM 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, FLÁVIO TAVARES É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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