Comércio mundial despenca

A internacionalização da produção industrial permitiu a fabricação de muitos bens com a utilização de componentes procedentes de diferentes partes do mundo e, assim, impulsionou fortemente o comércio internacional, que nos últimos anos cresceu a um ritmo mais acelerado do que o do crescimento do PIB mundial. Essa relação de causa e efeito é notada também nos períodos de crise: a atividade produtiva está caindo e o fluxo comercial cai ainda mais depressa. O PIB mundial deverá registrar em 2009 um de seus piores desempenhos em várias décadas, com crescimento de 0,5%, segundo estimativas de janeiro; já o comércio mundial poderá diminuir até 9% em volume, no que seria a maior queda desde a 2ª Guerra Mundial.Estas são algumas das conclusões de um estudo da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a recessão mundial e seu impacto no comércio internacional. A OMC reviu algumas projeções feitas no ano passado. Ela previa que, em 2008, o comércio mundial cresceria 4,5%, mas reduziu sua estimativa para 2,5%.O estudo mostra um aspecto da atual desaceleração do comércio internacional que a torna diferente das que ocorreram no passado. Até há pouco, a desaceleração em alguns países ou em algumas regiões era compensada, ainda que parcialmente, pelo maior dinamismo do comércio de outras partes do mundo. Desta vez, no entanto, a crise mostra uma notável sincronia. Os dados mensais de exportações e importações das principais economias industrializadas e em desenvolvimento mostram uma única tendência: eles caem paralelamente. Essa constatação da OMC desmente a crença de alguns governos, inclusive o brasileiro, de que a crise passaria ao largo de suas economias. Quando os problemas dos países industrializados se agravaram abruptamente, em setembro de 2008, chegou-se a pensar que, por terem conquistado fatias expressivas do comércio mundial e diversificado seus mercados, os países em desenvolvimento sofreriam menos com a crise. De algum modo, se descolariam dos problemas que afetavam duramente os países mais ricos. Logo se verificou, porém, que ninguém escaparia dos efeitos da crise, principalmente no que se refere ao comércio exterior.Além da internacionalização da produção industrial, o estudo da OMC aponta outros fatores que tornam os efeitos da atual recessão sobre o comércio mundial mais intensos do que os das recessões ou das desacelerações da atividade econômica registrados no passado. Por causa da integração econômica mundial, a queda da demanda não é mais um fenômeno local ou regional, mas generalizado. A escassez de financiamentos, vitais para o comércio internacional, é outro fator que a OMC cita para explicar a força com que a recessão afeta as trocas comerciais."O comércio pode ser uma arma poderosa para retirar o mundo do atoleiro econômico", disse o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, ao apresentar o estudo. Mas o comércio pode ser também um fator de retardamento da solução da crise, se os governos, pressionados por representantes dos setores produtivos nacionais, começarem a adotar medidas de proteção. E isso, advertiu Lamy, já vem ocorrendo. "O emprego de medidas protecionistas está aumentando e há o risco cada vez maior de elas asfixiarem o comércio, que é o motor da recuperação."No meio de projeções sombrias, diagnósticos desanimadores e advertências preocupantes como as de Lamy, há dados que talvez instilem um pouco de ânimo nos pessimistas. As exportações caem em todo o planeta, e de maneira forte até mesmo na China, cujo comércio exterior era um dos mais dinâmicos do mundo. Mas a China é ainda uma das poucas exceções na tendência de queda dos fluxos comerciais. Suas importações cresceram 17% em fevereiro. Também aumentaram as importações de Cingapura, Formosa e Vietnã.São dados isolados, mas, com algum otimismo, a OMC observa que eles poderiam indicar que o comércio mundial chegou ao fundo do poço. A OMC ressalva, no entanto, que, se outros problemas surgirem no sistema financeiro internacional, a recuperação demorará muito e os dados sobre o comércio mundial terão de ser revistos, para pior.

, O Estadao de S.Paulo

30 de março de 2009 | 00h00

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