Como caminhar para a saída

Em outubro, quem propuser entregar ao povo o comando do seu próprio futuro leva

FERNÃO LARA MESQUITA*, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2018 | 03h00

O Brasil precisa suspender as hostilidades. Manter essa briga de faca no escuro é o modo mais eficaz de não permitir que o que quer que seja mude. E não mudar tudo, e logo, vai nos levar reto para uma ditadura da violência organizada violenta o bastante para deter a violência desorganizada que está pondo o País em pânico.

Ditadura de que “lado”?

Daquele que nos manterá impossibilitados de aprender democracia, fora do nosso tempo e condenados a voltar sempre ao ponto de partida como estamos voltando mais uma vez agora...

Lava Jato?

É o que temos pra hoje. Quem ainda resiste ao desespero resiste agarrado a ela porque fora dela nada nos foi oferecido. Mas a esta altura todo mundo já aprendeu a manipulá-la. Há lava jatos para todos os gostos e finalidades e só a menor e menos poderosa delas é realmente séria. O caminho para dar a cada um o que ficou devendo à Justiça seria voltarmos a respeitar os pormenores, o que quer dizer reduzir drasticamente a velocidade. Deus (e o diabo) estão nos detalhes que o Brasil foi levado a deixar de enxergar porque essa era a única maneira de evitar que os condenados na Ação Penal 470, do mensalão, diferentes de todo o resto da boa e da má política do Brasil como de fato são, fossem expulsos para sempre do jogo democrático, que trabalham para destruir por dentro.

A primeira parte das gravações dos 1.829 candidatos de 28 partidos pedindo dinheiro de campanha que Joesley tem guardadas e às quais dá ou não “acesso” a jornais e TVs on demand é igual para quem parou por aí ou para quem foi além vendendo favores para se locupletar. Apoiar só nessa parte as manchetes é a maneira mais fácil de seguir com o plano de desmoralização do único Poder eleito da República excluído o Executivo que nomeia a cúpula do Judiciário. Aquele plano que começou pela criação de monopólios artificiais para financiar a compra de votos de congressistas no atacado, primeiro, e a de campanhas a granel mais adiante, para a consecução do projeto de poder antidemocrático com pretensões multinacionais que Lula descreve pessoalmente nas suas perorações ao Foro de São Paulo disponíveis no YouTube.

Diferenciar financiamento de campanha de corrupção e essas duas coisas de conspiração contra a democracia é perfeitamente possível, como ficou demonstrado na sentença do mensalão. Só que leva tempo. O tempo que a Lava Jato séria gasta nos seus processos e as lava jatos bandalhas atropelam nos delas. O tempo que deveria ser obrigatoriamente gasto em apuração independente dos fatos entre o “acesso” dado às gravações dos joesleys e a publicação das manchetes acusatórias. Um tempo, enfim, que este Brasil periclitante não tem mais.

Eleições?

Ok. Mas quem for eleito terá de governar um país à beira do caos.

Montar um time tecnicamente capaz de deter a explosão da maior bomba fiscal jamais plantada nos alicerces da Nação é o de menos. Mas até isso está prejudicado. No meio dessa guerra que fez a presunção de culpa substituir a presunção de inocência na cabeça das pessoas e na nossa (des)ordem judicial televisiva, nenhum quadro técnico bem-intencionado à altura do desafio terá coragem de vir trabalhar para governos. A chance de acabar incinerado é praticamente certa.

Parada dura mesmo é a política. Essa bomba fiscal não poderá ser desarmada sem uma mudança profunda nas regras de apropriação da riqueza nacional vigentes. Como construir maiorias para enfrentar 518 anos de corporativismo constitucionalmente “petrificado” num país conflagrado e com a política fechada à entrada de sangue novo?

Parece uma missão impossível, mas a necessidade sempre fez milagres. O Estado está a ponto de se dissolver num país miserabilizado que emasculou a iniciativa privada e confiou tudo ao Estado. Há uma consciência clara até dentro da privilegiatura de que, se não pusermos ao menos no horizonte visível o fim da desigualdade perante a lei que se traduz no sumidouro da previdência pública e está na base desse desastre, ela vai morrer junto com o organismo que parasitou além do limite da sobrevivência. É uma faca de dois gumes, pois para quem já não se vexa de abraçar ditaduras assassinas é a explosão que interessa, e para tê-la basta não fazer e não deixar fazer nada.

Para reformar um sistema defeituoso como o nosso é preciso antes de mais nada identificá-lo como tal. Reconhecer que, como comprova o fato de já termos dado a volta completa no circuito das ideologias no comando colhendo sempre o mesmo resultado, é o sistema que entorta todos que toca e não as pessoas que entortam o sistema.

Todas as forças necessárias para empurrar a mudança estão vivas e operantes. Mesmo diante da maior operação de patrulhamento jamais arquitetada na história da televisão brasileira, havia uma maioria no Congresso Nacional, como a que há no Brasil aqui de fora e também dentro dos setores mais profissionais e mais mal pagos do serviço público, disposta a devolver privilégios em nome da salvação nacional. Mas ela foi bloqueada pelas defesas que o sistema erigiu contra a alteração de si mesmo, a mais forte das quais é a imprecisão da representação do Brasil Real no Brasil Oficial.

É preciso suspender a validade dessas defesas contra a devolução, em prazo marcado, de um País sob nova direção onde esteja absolutamente claro quem representa quem, e a entrega ao povo/eleitor, única fonte de legitimidade, como reza a Constituição, do direito à ultima palavra em todas as decisões que afundam ou fazem os países voar. A receita é conhecida, testada e aprovada: eleições distritais puras, precariedade dos mandatos e empregos públicos retomáveis por iniciativa popular a qualquer momento (recall), direito ao referendo das leis dos Legislativos, direito à reconfirmação periódica dos juízes encarregados de fazê-las cumprir. Isso – e só isso – cerca e mata a corrupção.

A eleição de outubro pode e deve ser plebiscitária. Quem propuser entregar ao povo o comando do seu próprio futuro leva. Deixar rolar como está é suicídio.

* FERNÃO LARA MESQUITA É JORNALISTA, ESCREVE EM WWW.VESPEIRO.COM

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