Como melhorar o trânsito a custo zero (ou quase)

É fácil fazer uma revolução no trânsito de qualquer cidade. Basta copiar o que fez Haussmann em Paris. Ou seja, demolir, para abrir grandes avenidas.

CLAUDIO DE MOURA CASTRO, O Estado de S.Paulo

21 Março 2012 | 03h06

Tecnicamente é fácil, mas na prática é impossível. Vejam só, em 50 anos Belo Horizonte só fez duas avenidas, à la Haussmann. E já abriu o bico, sem fôlego para outras. Daí que devemos pensar em outras soluções.

Há muitas. Mas quero falar apenas das microssoluções, que, individualmente, parecem pífias, mas o seu somatório pode aliviar o trânsito. Vejamos algumas ideias, engendradas na monotonia dos congestionamento.

Vias de acesso - Em certas horas do dia algumas ruas e avenidas concentram o trânsito, ficando congestionadas. A primeira providência, se já não foi tomada, é mapear quais artérias cumprem esse papel e em que horários isso ocorre. Conhecendo esses parâmetros, há muito a fazer.

Eliminar o estacionamento nessas artérias e nessas horas. Não tem sentido poucas dúzias de veículos atrasarem a vida de milhares de pessoas, como vemos acontecer.

Coibir severamente tudo o que retarde o tráfico nessas vias, incluindo não apenas o estacionamento, mas as paradas (caminhões descarregando, etc.). Portanto, patrulhá-las mais intensamente e criar um 0800 para avisar que alguém está parado ou estacionado nelas.

Criar um sistema diferenciado de perícia e reboque, para reduzir dramaticamente o tempo em que a via permanece obstruída. Nessas vias, acidentes têm preferência no atendimento e haverá formas rápidas de liberar a rua.

Remanejar paradas de ônibus, de forma a evitar os locais mais congestionados ou criando reentrâncias no passeio.

Encontrar soluções para saídas de colégio em artérias movimentadas. Em alguns casos, proibir o estacionamento próximo nas horas críticas de embarque e desembarque. Se isso não for possível, reservar ruas de pouco movimento nas proximidades.

Semáforos - Permitir a conversão à direita com o sinal fechado. No Brasil já foi assim e hoje todos os Estados americanos adotaram a prática. Por que não?

Utilizar a prática (também americana) de pôr o semáforo piscando em horários noturnos. Com ou sem justificativas de segurança, a partir de certa hora quase todos avançam o sinal. Se todos são pecadores e não há como coibir, é melhor eliminar o pecado. Reduzirá o número de acidentes? Se não há estatísticas sobre esse assunto, deveria haver.

Estudar cuidadosamente o fluxo de veículos e pedestres nos cruzamentos e otimizar o tempo de duração para cada rua. Há ruas de pouco movimento com tempos excessivos. O somatório de esperas desnecessárias deve ser substancial. Ondas verdes, com sinais sincronizados, são ainda melhores, mas aqui falamos de custo zero.

Acesso diferenciado a linhas preferenciais - As faixas privativas para ônibus foram um avanço. Mas é pouco. Considerando que os carros andam com lotação média de 75% da capacidade, a solução mais radical seria dar acesso às vias preferenciais apenas a automóveis com sua lotação completa. Assim, de cada quatro carros, três a menos estariam na rua! Vizinhos que trabalham perto teriam boas razões para viajar juntos (estimulando o conhecido carpool). Oferecer caronas na rua, para entrar na privativa, alivia os ônibus.

Essas medidas se aplicariam também às grandes vias de acesso, onde, em certas horas, só se permitiria circular com lotação maior no carro. Quem tiver bancos vazios ou vai outra hora, ou usa vias menos convenientes.

Fiscalização aleatória em todas as ruas da cidade - Mesmo nos países ditos civilizados, boa parte do cumprimento da lei resulta do medo de ser apanhado desobedecendo-lhe. Como sabemos onde há guardas e onde não os há, sabemos também onde obedecer às leis do trânsito e onde não fazê-lo.

Portanto, a solução óbvia é fazer com que jamais possamos ficar sabendo em que esquinas haverá guardas fiscalizando. Basta um programinha de computador, mandando aleatoriamente os guardas disponíveis para alguma esquina, digamos, por uma hora, passando depois para outra. Como ninguém saberá onde estão, aumenta o medo da multa. Naturalmente, locais onde acontecem mais acidentes serão mais sorteados.

Políticas de redução dos deslocamentos - Por que todos vão para o escritório à mesma hora e voltam também à mesma hora? Em alguns casos, há boas razões. Em outros, por que não encorajar grandes empresas a mudarem os seus horários de entrada e saída?

Motocicletas - Comparadas com automóveis, motos ocupam menos metros quadrados por pessoa no trânsito. O mesmo sucede no estacionamento, pois cada automóvel ocupa um espaço em que pelo menos oito ou dez motocicletas podem ser estacionadas. Com o crescimento da frota de motos, é preciso aumentar os estacionamentos privativos para elas. E também permitir que parem nos intervalos deixados pelos carros estacionados.

A proibição de estacionar sobre o passeio é sem sentido, sempre que não prejudique o fluxo de pedestres. É curioso, na Alemanha, França, Suíça e nos Estados Unidos esse estacionamento é permitido, liberando espaço para automóveis. Por que o purismo?

Abusos com motos são frequentes, os maiores pecadores sendo os motoboys. Mas estatísticas da Universidade do Sul da Califórnia dão algumas pistas bem úteis. Motociclistas com até seis meses de carteira têm 50% mais acidentes do que aqueles com mais tempo (o índice de acidentes cai de 1,4 para 0,96). E a partir dos 18 anos vai caindo a frequência de acidentes. Portanto, faz sentido exigir mais experiência.

Quem aprendeu com amigos e parentes tem um índice de 1,56. Quem fez curso sério de direção defensiva tem 0,46. Ou seja, cairiam os acidentes se fossem oferecidos bons cursos de direção defensiva, em vez inventar jalecos ou outras bobagens.

Que me perdoem a audácia os engenheiros de trânsito, mas aí estão meus palpites de leigo.

 

*ECONOMISTA, ESPECIALISTA EM EDUCAÇÃO

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