Como se não bastasse a crise

Alguns fatores, como os juros externos e as cotações das commodities, estão fora do controle das autoridades brasileiras

O Estado de S.Paulo

26 Maio 2017 | 03h09

Que o Brasil precise de juros muito mais baixos para crescer mais velozmente ninguém discute, mas é impossível dizer com um mínimo de segurança, hoje, até onde o Banco Central (BC) poderá avançar, nos próximos 12 meses, nos cortes da taxa básica. A crise política interna é o principal fator de insegurança, mas a evolução do cenário externo também poderá dificultar as ações da autoridade monetária em Brasília. Um desses fatores é o aperto gradual da política de crédito nos Estados Unidos. Mais uma alta poderá ocorrer em junho, a julgar pela ata da última reunião do Comitê de Mercado Aberto do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Além disso, muitos analistas apontam como provável uma segunda elevação antes do fim do ano. Quem decide sobre os juros no Brasil tem de incluir cada um desses movimentos em seus cálculos. Taxas mais altas no mercado financeiro internacional diminuem o espaço para redução no Brasil. Perdem com isso os empresários e os consumidores brasileiros.

A nova ata publicada pelo Fed refere-se à reunião dos dias 2 e 3 de maio. Nessa ocasião, o comitê decidiu manter a taxa básica na faixa de 0,75% a 1% ao ano, mas a maioria de seus membros, segundo o relato, mostrou confiança em relação à continuidade do crescimento econômico e da criação de empregos. A menor expansão da atividade observada no primeiro trimestre foi em geral considerada um evento passageiro. A avaliação positiva foi confirmada, segundo o documento, pelos dados econômicos mais atualizados.

A mediana das projeções de crescimento ficou em 2,1% para 2017, 2,1% para 2018, 1,9% para 2019 e 1,8% para o longo prazo. Entre 2017 e 2019 o desemprego deverá permanecer em 4,5% da força de trabalho e a inflação deverá avançar até a meta de 2% e aí permanecer. Esse quadro é compatível com novos apertos da política de juros, até se estabelecer a combinação desejada de desemprego e inflação ao consumidor.

O aumento da atividade e a redução do desemprego na maior economia do mundo são, em princípio, boas notícias para todo o mundo. A prosperidade americana pode transmitir-se a muitos outros países por meio do comércio e do investimento, se nenhum grande obstáculo for criado pelas políticas do presidente Donald Trump. Essa transmissão de vitalidade é ainda mais importante numa fase de reestruturação e de menor crescimento da China, a segunda maior potência econômica. Mas a expressão “em princípio” dá espaço a algumas qualificações.

Para um país nas condições do Brasil, com as contas de governo ainda em muito mau estado, poupança escassa, baixo nível de investimento e sistema produtivo enfraquecido, qualquer aperto no mercado financeiro internacional pode ser perigoso. O quadro é particularmente ruim porque o País está dois níveis abaixo do grau de investimento, na classificação das principais agências de avaliação de risco.

Mas a crise política pode agravar seriamente esses problemas. A agência de classificação de risco Standard & Poor’s acaba de pôr em observação, com risco de rebaixamento, as condições do crédito soberano e de algumas dezenas de bancos e de empresas. Além disso, a incerteza quanto à evolução do cenário político contamina as perspectivas de avanço na aprovação e na implementação do ajuste das contas públicas e da pauta de reformas. Também essas perspectivas podem afetar as decisões do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, sobre os juros e outros determinantes das condições de crédito.

Alguns fatores, como os juros externos e as cotações das commodities, estão fora do controle das autoridades brasileiras. Mas autoridades e políticos nacionais são responsáveis exclusivos pela maior parte do cenário e das perspectivas da economia local. Se tiverem prudência e percepção dos desafios e das limitações econômicas, serão capazes até de atenuar, pela ação preventiva e rápida, os efeitos perigosos de fatores externos, como a alta dos juros americanos. O teste inclui, é claro, a capacidade de pensar no interesse nacional.

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