Comoção na Argentina

Seja qual for a conclusão a que se chegue no caso da morte do promotor federal argentino Alberto Nisman, se é que algum dia haverá uma conclusão em que se possa confiar, a presidente Cristina Kirchner viverá o último ano de seu mandato sob a suspeita de que tem algo muito grave a esconder do país que governa.

O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2015 | 02h05

Para os argentinos, a bem da verdade, não chega a ser novidade a falta de transparência de uma administração habituada a escamotear informações relevantes, como os indicadores econômicos. No entanto, a morte do promotor Nisman pode estar em outra categoria - a de crime político - e a simples hipótese de que o governo possa ter colaborado de alguma forma para esse desfecho trágico atira Cristina numa crise sem precedentes nesses 11 anos de kirchnerismo.

No domingo, Nisman foi encontrado morto em seu apartamento, com um tiro na cabeça. No dia seguinte estava marcada uma audiência no Congresso em que o promotor, conforme anunciara, detalharia uma denúncia contra Cristina e alguns de seus principais colaboradores. Segundo sua acusação, feita cinco dias antes, a presidente acobertou o governo do Irã na investigação sobre o atentado de 1994, em Buenos Aires, contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), que deixou 85 mortos. Nisman investigou esse ataque terrorista nos últimos dez anos.

Com base em conversas telefônicas, reunidas em 961 CDs, Nisman concluiu que Cristina e seu ministro das Relações Exteriores, Héctor Timmerman, além de outros três aliados do governo, articularam uma "confabulação criminosa" para encobrir a participação de funcionários iranianos no atentado, o maior da história argentina - pelo qual até hoje ninguém foi formalmente punido, embora as investigações apontassem para uma ação orquestrada pelo Irã e pela milícia libanesa Hezbollah.

A operação comandada pela Casa Rosada, conforme Nisman, resultou no Memorando de Entendimento entre a Argentina e o Irã, aprovado em 2013 pelo Congresso argentino. Nesse acordo, sob a alegação do governo kirchnerista de que era preciso destravar as investigações, desde sempre contaminadas por interesses nunca inteiramente esclarecidos, seria criada uma "comissão da verdade" para o caso, em que haveria uma "investigação conjunta". Considerando-se que alguns dos suspeitos ainda ocupavam cargos importantes no governo iraniano ou continuavam tendo grande influência, é improvável que tal "investigação" não resultasse senão em encenação - cujo objetivo, segundo o promotor Nisman, era inocentar os iranianos.

Para Nisman, a contrapartida de Teerã seria o incremento das relações comerciais com a Argentina - cuja necessidade urgente de divisas internacionais é bastante conhecida.

O promotor sabia que estava pisando em terreno minado. Chegou a dizer, em entrevista ao jornal Clarín, que temia ser morto. Vivia com dez guarda-costas - mas nenhum deles estava com Nisman no apartamento quando ele foi alvejado.

As autoridades argentinas rapidamente descartaram a hipótese de assassinato, restando a de suicídio, mas há razões para acreditar que essa conclusão talvez seja precipitada. Em primeiro lugar, Nisman não deixou nenhum bilhete de despedida. Tampouco foram encontrados vestígios de pólvora em sua mão. Além disso, a arma não era dele. E o promotor deixara para a empregada, que viria no dia seguinte, uma lista de compras.

A maior razão para cautela, no entanto, é que havia muita gente interessada no silêncio de Nisman, na Argentina e no Irã. Apenas essa constatação já seria suficiente para refrear o ímpeto da Casa Rosada de tratar o caso desde já como suicídio. Mas o açodamento oficial, que trai um certo nervosismo, parte da própria Cristina Kirchner. Em mensagem postada no Facebook sobre o caso, ela pergunta: "O que leva uma pessoa a tomar a terrível decisão de tirar sua própria vida?".

Como escreveu o jornalista Ricardo Roa em artigo no Clarín, "há suicídios que não se dão por vontade própria".

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