Concentração bancária

Depois de intervir no Cruzeiro do Sul, em 4 de junho, o Banco Central (BC) está exigindo que os bancos médios e pequenos façam provisões adicionais para garantir suas operações. O objetivo é preservar a confiabilidade do setor, antecipando-se ao aperto das regras de capitalização do Comitê de Supervisão Bancária de Basileia, que obrigarão as instituições a aportar mais recursos, entre 2013 e 2019.

O Estado de S.Paulo

24 Julho 2012 | 03h11

No primeiro trimestre, os balanços de 12 bancos médios analisados pela Agência Estado mostraram um aumento de provisões para devedores duvidosos de R$ 3,5 bilhões, 25% mais do que em igual período de 2011. Provisões extras de até R$ 1 bilhão foram exigidas pelo BC de um banco médio, apurou o repórter Altamiro Silva Júnior, do Estado (13/7). De outra instituição, o Rural, foi pedido um ajuste de R$ 180 milhões, declarado no balanço.

O aperto é consequência da concessão de maus créditos (alguns, fraudulentos), da inadimplência crescente e da desaceleração das atividades, no Brasil e no mundo, que reduziu a oferta de recursos para os bancos e para as empresas.

Obrigados a buscar mais capital com os sócios ou a captar mais recursos no mercado, via colocação de papéis, os bancos médios e pequenos enfrentam dificuldades e cortam crédito. Desse ponto de vista, a política de austeridade do BC conflita com a ação das autoridades fazendárias de irrigar a economia com mais empréstimos.

Os primeiros sinais de aperto nos bancos médios e pequenos começaram a aparecer em 2010, no Banco Panamericano. Mesmo recebendo vultosos aportes do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o banco teve o controle transferido para o BTG Pactual.

No ano passado, o Banco Central interveio no Banco Morada e na financiadora Oboé, além de facilitar a transferência do controle do Banco Schahin para o BMG e do Matone para o grupo JBS. O próprio BMG associou-se, há dias, com o Banco Itaú, para exploração do crédito consignado, melhorando sua posição.

O Cruzeiro do Sul havia assumido o Banco Prosper, em 2010, para surpresa de quem já conhecia as dificuldades do banco da família Índio da Costa. Agora, constata-se que a situação do Cruzeiro do Sul era pior do que se supunha no momento da intervenção. Em vez de um rombo de R$ 1,3 bilhão, a reestimativa é de que o rombo chega a R$ 2,5 bilhões. Foram identificadas 300 mil operações falsas de crédito consignado, no valor de R$ 1,6 bilhão, além de ativos superavaliados, passivos tributários não conhecidos e provisões contra perdas de crédito inferiores às determinadas pelo Banco Central.

Para destravar o mercado dos bancos médios e pequenos, que respondem por cerca de 10% - ou R$ 220 bilhões - da oferta de crédito total, permitindo que eles voltem a conceder empréstimos, o BC avalia a criação de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (Fidc), de grande porte. Este carrearia recursos para os bancos com problemas de captação. Teria como lastro ativos de boa qualidade dos bancos, após triagem do Sistema Central de Cessões de Crédito (C3), da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), segundo constatou o repórter Leandro Modé, do Estado (16/7).

O rigor do Banco Central incomoda os bancos médios e pequenos, pois limita os empréstimos - e, portanto, a lucratividade. "O aumento das exigências pelo BC tem levado muitos bancos a não renovar os empréstimos", declarou um banqueiro ao Estado.

A política de capitalização dos bancos, no entanto, é necessária. O mais provável é que a crise global se prolongue e continue a afetar a economia brasileira. Os bancos têm de demonstrar solidez. Mesmo no exterior, grandes instituições, como JPMorgan, Citi e Wellsfargo, mostraram queda de resultados no segundo trimestre, devido à alta inadimplência.

No Brasil, a pior consequência do aperto dos bancos médios e pequenos é o aumento da concentração bancária, já bastante elevada. Mas, ante o crescimento dos riscos dos bancos médios e pequenos, a concentração parece ser uma tendência inevitável.

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