Condições para cortar os juros

Embora implícito, o recado para o presidente Michel Temer é claro: de sua firmeza na condução da política orçamentária dependerá em boa parte o ritmo de corte de juros pelo Copom

O Estado de S. Paulo

25 Dezembro 2016 | 03h07

Um dos piores pesadelos do consumidor brasileiro, a persistente alta de preços, continuará em dissipação nos próximos dois anos e até poderá chegar à meta oficial de 4,5% já em 2017. Melhor ainda: isso poderá ocorrer mesmo com novos cortes da taxa básica de juros e, portanto, com a melhora das condições de crédito. Essas boas notícias estão entre as mais importantes do novo relatório trimestral de inflação do Banco Central (BC), um sumário das condições e das perspectivas da economia nacional e das principais tendências internacionais. Mas as boas notícias têm uma contrapartida sombria. Os negócios continuarão fracos nos próximos 12 meses e – é fácil acrescentar – as condições de emprego também permanecerão desfavoráveis. A estimativa de crescimento econômico em 2017 foi rebaixada de 1,3% para 0,8%, enquanto a retração calculada para 2016 passou de 3,3% para 3,4%, mantendo-se muito próxima das avaliações do mercado.

O relatório reforça a aposta em uma diminuição maior de juros na próxima reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária, na primeira quinzena de janeiro. Um corte de 0,5 ponto, de 13,75% para 13,25%, já era considerado quase certo antes de sair o documento. Se confirmado, será o dobro de cada redução anunciada em outubro e novembro. A hipótese de uma tesourada mais audaciosa, de 0,75 ponto, já foi mencionada por gente mais entusiasmada logo depois de conhecido o novo relatório.

Mesmo nesse caso o crédito para consumo ou investimento continuará muito alto. O Copom terá de ir mais longe para produzir um efeito mais sensível na ponta dos empréstimos ao setor privado. Além disso, consumidores e empresários provavelmente só aumentarão seus gastos quando sentirem mais confiança na recuperação dos negócios e do emprego.

Por enquanto, o humor da maior parte das pessoas é pouco propício a compras maiores tanto de bens de consumo quanto de máquinas e equipamentos para produção. Pesquisas de várias instituições mostraram a melhora das expectativas durante vários meses, desde o começo do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Os indicadores de confiança voltaram no entanto a cair – um ponto mencionado logo no primeiro parágrafo do Relatório de Inflação. Não houve surpresa nesse recuo. Surpreendente seria a manutenção de expectativas favoráveis enquanto os indicadores de atividade e de emprego continuavam piorando, como ocorreu neste trimestre.

Houve fatos positivos, nesse período, como a aprovação de um teto para aumento do gasto público e os primeiros sinais de recuo da inflação. Mas seria necessário muito mais que isso para sustentar as expectativas criadas na fase de transição do governo. Além disso, aquelas expectativas nem chegaram a ser otimistas. A mudança dos indicadores de confiança, naquele período, apontou principalmente uma redução do pessimismo. Isso já seria muito bom, se o novo estado de espírito fosse sustentável. Mas a disposição da maioria das pessoas – e isto inclui a maior parte dos empresários – depende de fatos facilmente identificáveis na experiência comum do dia a dia. Esses fatos, por enquanto, são pouco entusiasmantes.

Com empresários e consumidores ainda retraídos, é difícil apostar em taxas de crescimento econômico maiores que as indicadas nas projeções correntes. Se a economia continuar em marcha lenta, o conserto das contas públicas será dificultado pela escassez de receitas tributárias. Se o governo, apesar de tudo, provar seu empenho na arrumação das contas públicas, manterá a confiança de analistas e de parte relevante dos investidores.

A evolução do ajuste, incluída a pauta de reformas, continuará sendo uma referência importante para a política monetária, como está indicado no Relatório de Inflação. Se o ajuste emperrar, as decisões de redução dos juros poderão ficar mais complicadas. Embora implícito, o recado para o presidente Michel Temer é claro: de sua firmeza na condução da política orçamentária dependerá em boa parte o ritmo de corte de juros pelo Copom.

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