Conectar-se para crescer

Apesar do processo de abertura iniciado nos anos 90, o Brasil continua fechado, quando comparado a outras economias, e conectar-se ao resto do mundo seria um importante fator de crescimento. É o que aponta um estudo da consultoria McKinsey, que relata um crescimento de até 40% na geração de riqueza dos países que se dedicaram a ampliar as suas conexões em escala global.

O Estado de S.Paulo

23 Julho 2014 | 02h05

No ranking elaborado pela consultoria, que mede o nível de conexão de 131 países, o Brasil está na 43.ª posição, abaixo da Rússia (9.ª), China (25.ª), México (27.ª) e Índia (30.ª). As exportações brasileiras equivalem a 13% do PIB, muito abaixo da Índia (24%) ou do México (33%). Quando se olha o item exportações de serviço e a sua contribuição para o PIB nacional, o Brasil, com um porcentual de 1,8%, fica abaixo da média latino-americana (4,1%) e muito abaixo, por exemplo, da Índia (8%). É uma constante em quase todos os campos analisados pelo estudo, e o diagnóstico é evidente: o País ainda continua muito fechado. Isso significa a existência de um amplo espaço para o Brasil melhorar a sua conexão internacional. De acordo com as estimativas da McKinsey, esse processo de abertura - para se conectar mais, competir e crescer em produtividade - poderia acrescentar, anualmente, 1,25 ponto porcentual ao PIB.

Segundo o estudo, o Brasil teve recentemente dois casos de sucesso na abertura de setores da economia - a indústria aeronáutica e o agronegócio. Outras áreas poderiam receber semelhante influxo positivo, com um incremento de produtividade, caso o País se empenhe seriamente em promover maior conexão internacional. O estudo sugere, entre outras medidas, a ampliação dos acordos bilaterais com mercados desenvolvidos e a criação de instrumentos para incentivar a modernização e a concorrência.

O exemplo do campo é nítido. Ao longo de décadas houve uma forte proteção do setor agrícola, com uma elevada ingerência estatal em diversos pontos: definição da produção e da área plantada, acerto do volume a ser exportado, gerenciamento do estoque e precificação. Nos anos 90, levou-se a cabo uma ampla abertura, com a saída do governo como gestor do setor. Conforme relata reportagem do Estado, "na avaliação da McKinsey, essa abertura foi essencial para que os produtores elevassem investimentos e competissem globalmente. A reboque, fortaleceu a cadeia, aperfeiçoando a produção de insumos, de máquinas e equipamentos, bem como a capacidade de negociar". Segundo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e produtor, "a abertura gerou uma demanda brutal por gestão - gestão financeira, de produção, de inovação e até de mão de obra - e muita gente não resistiu. (...) Os que resistiram criaram uma nova civilização no campo".

No extremo oposto do espectro, o estudo da McKinsey menciona o setor automotivo, no qual permanece forte proteção do governo brasileiro e, consequentemente, baixa capacidade competitiva no âmbito internacional. Por exemplo, apenas 15% dos veículos produzidos no Brasil são exportados, enquanto, no México, 71% da produção é exportada e nos Estados Unidos, 25%. Esse quadro é uma consequência da estratégia do governo brasileiro: manter elevadas as tarifas de importação de veículos, para atrair montadoras ao País e assim garantir empregos locais. No entanto, segundo a consultoria, essa opção acaba prejudicando a integração do Brasil nas cadeias globais de valor, o que levaria a uma baixa produtividade do setor, com efeitos nocivos, a médio e longo prazos, também na geração de empregos.

A abertura da economia não é um processo indolor, mas a experiência - nacional ou internacional - apresenta consistentes efeitos positivos. Não se trata simplesmente de "decretar a abertura", mas de construir caminhos para uma maior conexão internacional. Pena que, na última década, o governo federal tenha desperdiçado as boas experiências anteriores. Preferiu o discurso ideológico a uma política comercial que favoreça o País.

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