Confiança na imprensa escrita

Pesquisa realizada pela Escola de Direito de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV), indica uma queda brusca na confiança dos brasileiros em relação ao governo federal. No primeiro semestre de 2014, 29% confiavam no Poder Executivo federal. Agora, o porcentual foi de apenas 17%, índice que se aproxima da confiança no Congresso Nacional (15%) e nos partidos políticos (5%).

O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2015 | 02h55

A finalidade da enquete, que ouviu 3.300 pessoas de 8 Estados – Amazonas, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal –, é medir “a percepção dos brasileiros em relação ao respeito às leis e às ordens de algumas autoridades, retratando a ligação do indivíduo com o Estado de Direito”. Entre os itens analisados está a confiança nas instituições. A última edição da pesquisa, relativa ao primeiro semestre de 2015, revela que a crise pela qual atravessa o País teve consequências negativas na visão dos brasileiros sobre as instituições. Até o Ministério Público (MP) sofreu uma piora em seu índice. Agora, 43% dos entrevistados manifestaram crédito no MP, ante 48% no ano passado. As instituições que receberam maior índice de confiança foram as Forças Armadas (67%) e a Igreja Católica (58%).

Nesse tópico sobre as instituições, a pesquisa indica um crescimento da confiança do brasileiro na imprensa escrita. No primeiro semestre de 2014, 44% dos entrevistados haviam manifestado sua confiança na imprensa escrita. Agora, em 2015, foram 47%.

Os dados mostram que a confiança na imprensa não foi afetada pela crise política, econômica, social e também moral que o País atravessa. Ao contrário, é como se a crise tivesse ajudado a desvelar a importância de uma imprensa livre, atuante e não submetida ao domínio do poder público. A independência da imprensa diante do poder público é percebida pela população – e talvez aí esteja a razão para que a confiança na imprensa cresça enquanto a das instituições públicas diminui.

A única instituição pública cujo nível de confiança cresceu entre o primeiro semestre de 2014 e o de 2015 foi o Poder Judiciário, com um aumento de 1 ponto porcentual, de 30% para 31%. Revela que também a Justiça é vista com independência do Poder Executivo e do Poder Legislativo, o que indica uma saudável maturidade institucional.

O crescimento da confiança na imprensa escrita manifesta que ela não perdeu relevância num cenário ocupado por tantas outras mídias. A oferta de informação em outras plataformas – o que é um enorme bem para a sociedade, com uma maior pluralidade de canais e fontes – faz apenas ressaltar a manutenção da função social exercida pela imprensa escrita. Sua informação é percebida como digna de um especial crédito. Por exemplo, o nível de confiança nas emissoras de televisão, que também cresceu entre 2014 e 2015, é atualmente de 34%.

Num mundo cada vez mais “multitarefa”, onde as pessoas realizam várias coisas ao mesmo tempo, a imprensa escrita – ao requerer certa exclusividade na atenção do leitor – oferece uma oportunidade única de comunicação de informação e de ideias. Aquilo que poderia ser visto como uma fragilidade manifesta-se na prática como um enorme diferencial em relação aos outros meios. Ela traz uma informação qualificada, quer seja pela forma como é produzida – com um rigor que difere do habitualmente encontrado em outros meios –, quer seja pela forma como é transmitida, numa relação única e exclusiva com cada leitor.

Não se trata de exagerar as diferenças entre os diferentes meios. Eles são complementares e não excludentes. Trata-se apenas de reconhecer a importância da imprensa escrita num mundo que tantas vezes decreta o fim do papel, o predomínio das imagens sobre o texto, o prazo de validade dos jornais. Não é bem assim. A narrativa produzida pelo jornalismo escrito continua relevante. E, mesmo tendo à disposição outros novos e excelentes meios – e talvez por isso mesmo –, as pessoas confiam cada vez mais na imprensa escrita.

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