Confiança no meio da crise

Enquanto o governo coleciona derrotas em seu esforço para consertar as contas públicas, o Banco Central (BC) oferece ao mercado uma notável exibição de confiança na sua política de combate à inflação e, mais surpreendente, até no modesto programa de reparação das finanças federais. No meio da mais ampla crise política e econômica desde a queda do presidente Fernando Collor, em 1992, é quase intrigante o otimismo embutido na Ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), formado por diretores do BC. Segundo a ata, ficou mais provável o cenário de inflação na meta de 4,5% no fim do próximo ano, embora as projeções do mercado ainda apontem uma taxa próxima de 5,5%. Além de reafirmar essa aposta, os membros do comitê decidiram interromper a sequência de aumentos da taxa básica de juros, a Selic, elevada a 14,25% na semana passada.

O Estado de S. Paulo

07 Agosto 2015 | 03h00

A taxa, de acordo com o relatório, será mantida nesse patamar “por tempo suficiente” para levar a inflação ao ponto desejado. O aperto monetário, segundo o argumento, ainda continuará produzindo efeitos defasados. Na ata da reunião anterior, no começo de junho, os avanços da política anti-inflacionária ainda eram descritos como insuficientes. Essa restrição, incluída em mais de uma ata, foi omitida no texto divulgado ontem. Em vez disso, o documento registra a expectativa de eliminação gradual dos riscos remanescentes. A única ressalva é a promessa de uma política ainda vigilante, para ação rápida se houver desvios significativos da trajetória desejada para a inflação.

Os fatores de risco são, de modo geral, os mesmos indicados em atas anteriores, como o aumento de salários acima dos ganhos de produtividade – um bem conhecido fator inflacionário – e o realinhamento de preços relativos. A referência, neste caso, é ao reflexo da valorização do dólar nos preços internos e à correção dos preços contidos politicamente, como os da eletricidade. Os juros altos, de acordo com a ata, ainda são necessários para conter a propagação desses aumentos. Mas o tom otimista prevalece.

O aperto monetário completado com a elevação dos juros para 14,25% será suficiente para produzir esse resultado, embora a inflação, neste ano, deva ficar bem acima das projeções iniciais. Além disso, outros fatores de pressão, como a demanda dos consumidores e a alta de salários, devem ser mitigados pela menor expansão do crédito e pelas mudanças no mercado de trabalho. Em outras palavras, crédito mais apertado e desemprego em alta acabarão freando os aumentos de preços e de salários. Algum efeito positivo resultará, enfim, da recessão enfrentada por empresas e famílias.

Como de costume, os autores da ata lembram a importância da política fiscal para a estabilização dos preços. Fica mais fácil de conter a inflação quando se reprime a gastança do governo e as contas públicas se ajustam. Esse lembrete aparece como um mantra nas Atas do Copom. A ata registra as novas metas de superávit primário (dinheiro para pagamento de juros) deste ano e do próximo, de 0,15% e de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Essas metas são menores que as originais (1,1% e 2%), mas os novos números são apresentados sem comentários.

Os membros do comitê limitam-se a manifestar a expectativa de ver esses objetivos alcançados. Mas isso é muito incerto, até porque o novo resultado primário programado para 2015 dependerá de receitas muito inseguras, obtidas, por exemplo, da taxação de recursos enviados ao exterior.

Em resumo: os membros do Copom podem apostar nos efeitos da alta de juros, mas em nada mais. A política fiscal continua muito insegura e os efeitos do câmbio nos preços internos ainda poderão ser muito sérios. Mas, apesar do cenário econômico muito incerto e ainda enevoado pela crise política, a ata é marcada por uma surpreendente demonstração de segurança. A política monetária, segundo o texto, “está na direção correta”. Quem mais, no governo, pode exibir tanta confiança?

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