Consagração aparente

Ano com Copa do Mundo e eleições presidenciais sempre será diferente, sujeito a chuvas e trovoadas, lágrimas e sorrisos, emoções à flor da pele. Ainda mais quando a festa máxima do futebol se realiza dentro de casa. Foi assim com 2014.

Marco Aurélio Nogueira, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2014 | 02h03

Não que uma disputa futebolística pudesse causar impacto incomum neste "país do futebol", com torcidas gigantescas e apaixonadas, onde a bola rola em cada esquina ou pedaço de chão e no qual o interesse popular subsiste até mesmo em fases de penúria técnica e financeira de clubes, times e jogadores. A Copa atraiu mais por seus efeitos externos: não pelo que ocorreu ou poderia ter ocorrido nas arenas, mas, sim, pelo que foi feito ou se deixou de fazer para que se jogassem os jogos. Custos de estádios, obras, operações publicitárias para ligar o governo federal ao sucesso do evento, cálculos sobre eventuais ganhos turísticos e eleitorais. A política foi mais relevante que o esporte, despertou mais interesse e gerou muito mais tensão do que aquilo que os jogadores fizeram nos gramados.

O resultado final deu empate. O futebol foi pífio, a seleção brasileira fracassou com direito a humilhação, exibindo uma mediocridade técnica, tática e emocional que não se cantava em verso e prosa. Mas a gestão governamental conseguiu se descolar do fracasso esportivo e da exorbitância de gastos e permaneceu com a cabeça fora d'água, agarrada ao que havia de racionalidade no "projeto Copa", em que pesem as vaias orquestradas contra a presidente.

Dias depois da entrega da taça, o País mergulhou, inicialmente sem maior interesse, na disputa eleitoral. Parecia anestesiado, paralisado pela mesmice do discurso político e pela reiteração de uma conhecida polarização partidária, vivida como se fosse um clássico futebolístico que perdeu a graça por falta de jogadores de talento, estratégias de jogo surpreendentes e jogadas espetaculares, a que se assiste com tédio e por hábito, como rotina dominical.

PT e PSDB armaram o circo para serem os únicos a pisar no picadeiro para recitar o poema bem decorado.

Quis o destino que o roteiro desenhado fosse inviabilizado, primeiro com a morte trágica de Eduardo Campos e, depois, com a ascensão meteórica de Marina Silva. O coro dos contentes desafinou e um calor desconhecido se fez presente na velha política, desorganizando o que parecia organizado. PT e PSDB sentiram as chamas arder próximas e tiveram de apelar para as armas abjetas da política negativa. Especialmente a partir do Palácio do Planalto - que não podia aceitar que uma outsider pusesse em risco o patrimônio eleitoral ali acumulado ao longo dos últimos 12 anos -, a violência da reação foi inusitada: a mentira, a difamação, a ameaça, a grosseria, a intimidação do eleitor, tudo foi usado para destruir, desconstruir e triturar Marina Silva. Nunca se viu algo do tipo sendo feito por um partido de esquerda.

A operação foi um sucesso e se estendeu para o segundo turno, alcançando então Aécio Neves. Funcionou mais uma vez. Voltou-se, assim, ao ramerrame do clássico desgastado, o vencedor passou raspando e o processo terminou com a aparente consagração de Dilma Rousseff.

Consagração aparente porque relativa e menos expressiva do que se imaginou. Passada a emoção da vitória e dos dias da refrega encarniçada, o novo mandato se apresentou sem ouropéis e lantejoulas: vazio de propósitos e de projetos claros, desprovido de novas ideias e condicionado por um ambiente adverso demais. As oposições cresceram, os aliados do Planalto já não se entendem como antes, o PT parece desnorteado, as ruas permanecem excitadas, os problemas se multiplicaram, falta munição própria na gestão econômica (a ponto de forçar o novo governo a saquear o estoque adversário) e há o caso imprevisível da Petrobrás, cujas labaredas não parecem destinadas a baixar tão cedo.

Vitórias eleitorais não garantem nada, nem sequer um mandato, menos ainda o sucesso. Uma vitória conseguida na bacia das almas e ocultando os problemas do País pode não ser uma vitória de Pirro, mas não propicia vantagens ou facilidades. Terá de ser comemorada perante o espelho do País realmente existente, com seus desníveis e suas carências, que continuam tão fortes quanto antes. Há problemas e deficiências para onde quer que se olhe. Na saúde, na educação, na infraestrutura, na segurança, no meio ambiente, no sistema hídrico e energético, nos transportes, nas cidades, na indústria. A cultura de governo estagnou, tendo de se haver com um sistema político que impõe aos governantes exigências que os fazem ficar mais lentos e menos coesos, oneram seus custos e os levam a compor equipes ministeriais ao sabor de pressões e chantagens, não de atributos técnicos ou critérios gerenciais.

É o preço maior da "velha política" que tanto se defendeu durante as eleições, contra as ideias da "nova política" trazidas por Marina Silva e por setores da esquerda democrática. Valorizado, o "velho" impõe agora sua lógica, limitando o que poderia haver de vida nova e tirando do novo governo parte das energias com que poderia crescer. Faz com que ele "domine" sem conseguir "dirigir". Sem um parâmetro consistente de direção política, intelectual, técnica e moral, os diversos vencedores ficam soltos e passam a querer sua parte no espólio, armando, para tanto, um cerco que asfixia o governo. Como todos têm o rabo preso, estão mais fracos e mais temerosos, o que em política nunca é bom.

E assim cai a última folha do calendário. 2015 já se anunciou com todas as cores e pompas, avisando que não há por que esperar dele promessas de dias melhores, muito dinheiro no bolso ou saúde pública para dar e vender. A cidadania ativa, democraticamente composta e orientada, terá de se fazer presente para extrair do novo ano o que ele se nega a conceder. Que assim seja.

*Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp 

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