Consumidor perde confiança

O crédito continua a crescer, mas cautela é a palavra de ordem no mercado, segundo os números de abril divulgados na sexta-feira pelo Banco Central (BC). A inadimplência, medida pelos atrasos superiores a 90 dias, é menor que no ano passado, mas ainda preocupa, dizem especialistas, tanto os fornecedores quanto os tomadores de empréstimos. O saldo das operações de crédito aumentou 1,1% no mês, 3,6% no ano e 16,4% em 12 meses, passando de 53,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em março para 54,1%. A expansão perde velocidade, refletindo, segundo o BC, a atividade econômica moderada e as expectativas de empresários e consumidores, mas, ainda assim, continua superando o aumento da produção.

O Estado de S.Paulo

27 Maio 2013 | 02h07

Qualquer evolução nos próximos meses - maior moderação ou reaceleração das operações de crédito - poderá complicar o quadro econômico, derrubando o consumo ou, inversamente, realimentando as pressões inflacionárias. O mais seguro para o governo, e para o País, seria uma reorientação mais firme da política econômica.

O saldo total dos empréstimos chegou a R$ 2,45 trilhões em abril. Esse resultado reflete as novas concessões de financiamento e as liquidações de compromissos pelos devedores. As concessões aumentaram 5,7% em abril, totalizando R$ 297 bilhões, com expansão de 7,7% nos desembolsos para pessoas físicas e de 3,9% nos empréstimos para pessoas jurídicas. A taxa média de juros para empresas vem-se mantendo em 14% ao ano desde janeiro, mas recuou 3,4% desde abril do ano passado. O custo para pessoas físicas diminuiu 0,1 ponto porcentual em abril e 5 pontos em 12 meses, mas continuou bastante elevado, em 24,3% ao ano.

A inadimplência das famílias caiu 0,1 ponto no mês, mas a taxa de 5,3% ainda é considerada alta e explica, em boa parte, a cautela dos tomadores de crédito e a busca de novos empréstimos para renegociação de compromissos em atraso.

As últimas pesquisas sobre confiança do consumidor e intenção de consumo têm apontado uma atitude bem mais cautelosa que a observada até recentemente. Segundo levantamento divulgado na sexta-feira pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, o índice de confiança do consumidor paulistano caiu 6,2% em maio, para 146 pontos. O dado mais notável foi a redução de 15% na confiança dos consumidores com renda superior a 10 salários mínimos, de 162,9 pontos para 138,4. Com números diferentes, os dados dessa pesquisa confirmaram a tendência apontada uma semana antes por um relatório da Associação Comercial. Nesta pesquisa, a perspectiva de consumo aumentou levemente (0,2 ponto), num cenário negativo sobre crédito e expectativas profissionais.

Em escala bem mais ampla, a piora do quadro foi confirmada por uma sondagem da Confederação Nacional do Comércio. Dados levantados em maio e divulgados no dia 21 indicaram intenção de consumo 2,2% mais baixa que a de abril e 6,2% inferior à de um ano antes.

A piora do sentimento, segundo os autores da pesquisa, reflete o nível ainda elevado de endividamento e de inadimplência, a corrosão da renda pela inflação e a menor segurança em relação ao emprego. Indicadores acima de 100 (127,7 no caso da intenção de consumo) ainda refletem algum otimismo, mas a deterioração das expectativas parece indiscutível.

Interpretação semelhante - insegurança quanto à inflação, aos juros e ao mercado de trabalho - foi oferecida pelos autores da pesquisa sobre o consumidor apresentada na sexta-feira pela Fundação Getúlio Vargas. O estudo mostrou um recuo de 0,4% na confiança, em maio, depois de estabilidade em abril.

O governo correrá um grande risco se continuar confiando no consumo como propulsor da economia. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o crescimento dependerá em 2013 basicamente do investimento. O IBGE mostrou maior produção de máquinas e equipamentos no primeiro trimestre, mas falta muito para o País voltar ao nível de investimento de dois anos atrás - e mesmo esse era insuficiente.

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