Consumo e indústria na frente

Apesar das tensões em Brasília e da resistência política a medidas importantes na área fiscal, a economia se move e se afasta da recessão

O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2017 | 05h00

Puxada pelo consumo e pela produção industrial, a economia continuou avançando no terceiro trimestre e gerando mais oportunidades de trabalho. Num cenário de menor insegurança, as famílias voltaram às compras e os empresários foram convocados a abastecer as lojas e supermercados. A indústria de transformação produziu 1,4% mais que no período de abril a junho, liderando o conjunto da atividade industrial. Do lado da demanda, o consumo das famílias foi 1,2% maior que no trimestre anterior, propiciando um aumento de 1,6% às vendas do comércio e fornecendo importante estímulo à atividade produtiva. Mas o balanço do período trouxe, além dessas novidades, uma especialmente animadora: o investimento produtivo, em particular em máquinas, superou por 1,6% o do segundo trimestre. Foi o primeiro resultado positivo, nesse tipo de confronto, desde o fim de 2013, em cerca de quatro anos, portanto.

O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,1% no terceiro trimestre – um resultado aparentemente muito modesto. Mas é preciso ir além desse número e examinar os detalhes da atividade econômica, para bem avaliar a evolução dos negócios nesse período. Esse exame revela uma economia em firme recuperação.

O número geral, 0,1%, reflete principalmente o recuo de 3,4% da produção agropecuária, depois de uma fase de grande expansão. No ano, o produto da agropecuária foi 14,5% maior que o do mesmo período de 2016. Os dados mais significativos, nesse conjunto inicial, apontam crescimento de 0,8% da produção industrial, no trimestre, e de 0,6% da atividade de serviços, animada principalmente pelo comércio.

O segmento de transformação, com atividades como a fabricação de veículos, de alimentos processados, de móveis e de produtos eletrônicos, cresceu 1,4% e liderou a expansão da indústria geral, estimada em 1% no trimestre. A média do setor foi prejudicada principalmente pela construção, estagnada no período e com produção 4,7% menor que a de um ano antes.

A fraqueza da construção prejudicou o conjunto do investimento produtivo, a formação bruta de capital fixo. Apesar do avanço de 1,6% entre o segundo e o terceiro trimestres deste ano, o total investido ainda foi 0,5% menor que o de um ano antes.

A expansão recente corresponde à incorporação de máquinas e equipamentos, tanto nacionais quanto estrangeiros. Isso indica uma promissora preocupação com a capacidade produtiva, dado essencial para a segurança do crescimento de longo prazo.

Mas o mau desempenho da construção reflete, além de problemas do setor imobiliário, a demora na retomada do investimento em infraestrutura, item fundamental para a eficiência geral da economia. Por enquanto restrito às compras de máquinas e equipamentos, o investimento correspondeu no terceiro trimestre a 16,1% do PIB. Um ano antes a relação era 16,3%. Neste ano, o total investido em capital fixo foi 3,6% menor que o aplicado nos mesmos meses de 2016.

A melhora observada entre o segundo e o terceiro trimestres é só um pequeno passo. O caminho até uma taxa parecida com a de países mais dinâmicos, uns 24% do PIB, será longo e trabalhoso. O avanço dependerá em boa parte da capacidade de poupança do governo. Portanto, da melhora das contas públicas e, para isso, de reformas essenciais, como a da Previdência.

Apesar das tensões em Brasília e da resistência política a medidas importantes na área fiscal, a economia se move e se afasta da recessão. No ano, o PIB foi 0,6% maior que no mesmo período de 2016. A produção agropecuária foi 14,5% superior. A da indústria geral, 0,9% menor, basicamente pelo mau desempenho da construção. A de transformação, favorecida também pela exportação, teve resultado 0,3% superior ao de um ano antes. O comércio avançou 0,8%, puxado por 0,4% de alta do consumo. Juros menores têm ajudado, mas dependem da inflação e, afinal, das contas públicas. Tudo converge para a política e para o vínculo entre os políticos e o interesse geral, o elo menos seguro dessa cadeia.

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