Consumo reage, por enquanto

Em março, o volume de vendas do varejo cresceu 0,3%, compensando com pequena folga o recuo de 0,2% no mês anterior

O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 03h00

A reação do consumo em março confirma a continuação da retomada econômica, apesar de alguns tropeços desde o início do ano. Se os juros caírem de novo e a inflação continuar moderada, pelo menos dois fatores importantes seguirão favorecendo a recuperação do consumo familiar. Isso dará suporte à atividade industrial, um pouco menos dinâmica depois de uma sensível melhora no ano passado. Em março, o volume de vendas do varejo cresceu 0,3%, compensando com pequena folga o recuo de 0,2% no mês anterior. No primeiro trimestre, o total vendido foi 3,8% superior ao dos meses de janeiro a março do ano passado. Foi o melhor resultado nesse tipo de comparação desde abril de 2014, quando a diferença chegou a 6,7%. Em 12 meses, a expansão atingiu 3,7%. A tendência de alta é percebida mais claramente quando os números são confrontados com os do ano anterior.

Um quadro mais completo do comércio é obtido quando se acrescentam os dados de vendas de veículos, seus componentes e materiais de construção. Esse conjunto aparece com o nome de varejo ampliado nos informes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse conjunto mais amplo atravessou sem tropeço os três primeiros meses de 2018. As vendas de março foram 1,1% maiores que as de fevereiro, o volume comercializado no primeiro trimestre superou por 6,6% o de igual período de 2017 e o total acumulado em 12 meses cresceu 6,2% em relação ao da fase precedente.

As vendas de veículos, motos e componentes deram a maior parte do impulso ao varejo ampliado. Essas vendas cresceram 2,9% de fevereiro para março. No primeiro trimestre, foram 17,9% maiores que as de janeiro a março de 2017. O volume acumulado em 12 meses aumentou 9,1%. Esse desempenho é explicável principalmente pela expansão do crédito.

O saldo desse crédito aumentou 1,2% de fevereiro para março. No trimestre, foi 2,7% maior que o de um ano antes. Em 12 meses a expansão chegou a 7,6%, segundo os últimos dados do Banco Central. Em março, o custo médio das operações com recursos livres ficou em 41,4% ao ano. Os empréstimos para compra de veículos tiveram juros de 24%. As taxas são menores que as de muitas outras operações porque nas vendas de carros o financiamento é garantido pelo bem comercializado.

A recuperação do setor automobilístico tem sido favorecida tanto pela melhora do mercado interno como pela expansão das exportações. De janeiro a abril, a produção de veículos foi 20,7% maior que a dos primeiros quatro meses de 2017. Em 12 meses, o total fabricado aumentou 24,1%. Não se recuperou ainda o nível de atividade anterior à crise, mas a retomada, embora incompleta, já produz benefícios importantes para o País, por causa da ampla cadeia de indústrias fornecedoras de matérias-primas e componentes para a fabricação de veículos.

A principal limitação ao consumo provavelmente ainda será, nos próximos meses, o desemprego elevado. No primeiro trimestre, a desocupação voltou ao nível de 13,1% da força de trabalho, com 13,7 milhões de pessoas em busca de alguma atividade. O quadro ainda foi melhor que o de um ano antes, quando os desocupados eram 13,7% da população ativa, mas boa parte da recuperação do emprego conseguida em 2017 foi anulada.

Se a oferta de vagas continuar muito fraca nos próximos meses, o ritmo da recuperação econômica será afetado. Haverá travas tanto para o consumo como para a produção. Um cenário melhor dependerá das expectativas de empresários, consumidores e investidores de todos os tipos. Essas expectativas serão em parte determinadas pelas condições internacionais, fatores fora do alcance dos brasileiros. Mas fatores internos também afetarão as decisões de consumir, produzir, formar estoques e, naturalmente, contratar pessoal. Há, internamente, um amplo campo de atuação possível para o governo e os políticos. Haverá mais um teste crucial de visão, competência e responsabilidade pública desses atores.

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