Consumo, serviços e estagnação

A economia brasileira deve encolher em 2015 e completar dois anos de retração, segundo estimativas do mercado financeiro. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, já admitiu a hipótese de um resultado negativo em 2014. Essa avaliação foi reforçada com a divulgação da receita do setor de serviços, calculada mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em dezembro, a receita nominal do setor, isto é, sem desconto da inflação, foi 4,2% maior que a de um ano antes. Durante o ano, o crescimento em relação a 2013 ficou em 6%. Foi o pior desempenho desde o início da série, em 2012. Considerada a evolução dos preços, sobra obviamente uma variação real negativa. A comparação de dezembro com o mesmo mês do ano anterior apontou recuo de 2,4%. No ano todo, a perda ficou em 1,1%, de acordo com a estimativa da consultoria Tendências. A avaliação final só será conhecida no fim de março, quando saírem os números do Produto Interno Bruto do quarto trimestre e o quadro geral de 2014.

O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2015 | 02h05

Tudo indica, por enquanto, um resultado negativo para o setor de serviços. Como o desempenho da indústria foi novamente muito ruim, o balanço geral deverá mostrar, quase certamente, uma retração econômica, mesmo com os dados positivos da agropecuária. A produção rural continua sendo uma exceção no cenário de ineficiência e de baixa competitividade da economia brasileira.

Por seu peso estatístico na formação do PIB, o setor de serviços vinha compensando, no balanço geral, a estagnação da indústria. Do lado da demanda, o consumo privado também vinha sendo um foco de dinamismo, ao lado do gasto público. Mas os dois fatores - os serviços, do lado da oferta, e o consumo familiar, do lado da demanda - perderam vigor. Com isso, a desolação econômica se torna quase completa. Ficam fora somente o agronegócio e uns poucos segmentos da indústria, com destaque para a fabricação de aviões.

Apesar de tudo, a maior elevação nominal (9,2%) foi a da receita dos serviços prestados às famílias. Mas o crescimento real ficou abaixo de 1%. Um resultado melhor que esse em 2015 será uma surpresa, se as expectativas de mais um ano de baixa atividade se confirmarem. No mercado, a mediana das projeções de crescimento econômico em 2015 ficou em menos 0,5% na pesquisa Focus do dia 20. Nessa pesquisa, cada semana o Banco Central consulta uma centena de instituições.

O enfraquecimento do setor de serviços combina com os dados da produção industrial e das vendas do comércio varejista publicados nas últimas semanas pelo IBGE. A indústria produziu no ano passado 3,2% menos que em 2013, de acordo com esse balanço. Mas a produção industrial já vinha diminuindo nos anos anteriores, principalmente por causa dos erros de política econômica acumulados nos últimos anos.

A perda de vigor do consumo, no entanto, marcou uma alteração da tendência observada durante vários anos. Não chegou a ser uma surpresa, porque a inflação elevada e persistente, o crédito mais seletivo e o menor dinamismo do mercado de empregos deveriam afetar a disposição dos consumidores. Faltava saber quando o efeito desses fatores se tornaria bastante visível. De toda forma, a desaceleração do consumo foi notada no segundo semestre de 2014. No ano, as vendas do varejo "ampliado", isto é, com inclusão de veículos, autopartes e material de construção, foram 1,7% menores que as de 2013. As do varejo restrito ainda aumentaram 2,2%, um resultado modesto.

O enfraquecimento da oferta de serviços acompanhou a retração geral da demanda. O investimento produtivo declinou nos últimos anos e a exportação fraquejou. Os dois fenômenos foram em boa parte associados ao mau desempenho da indústria e à lenta realização dos projetos de infraestrutura. Os números comprovam, enfim, cada vez mais claramente, a tese proclamada há muito tempo pelo bom senso: é impossível manter por muito tempo uma atividade econômica baseada no consumo e em serviços de baixa produtividade. Mas o governo recusou, durante anos, essa obviedade.

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