Contando com a sorte

A presidente Dilma Rousseff disse que não está preocupada com a possibilidade de terroristas atacarem o Brasil durante a realização dos Jogos Olímpicos do Rio, no ano que vem. Em sua linguagem peculiar, a petista declarou que “nós estamos muito longe, nós estamos muito longe, em termos de mundo, dos locais onde esse processo está se dando”. Isso significa que, para a presidente do País que sediará o evento de maior audiência e interesse do mundo, o Brasil está a salvo dos atentados porque fica “muito longe” de onde as bombas costumam explodir.

O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2015 | 02h52

Depois da carnificina perpetrada pelo Estado Islâmico em Paris, seria prudente que o governo brasileiro ao menos expressasse cautela e sinalizasse disposição para adotar medidas adicionais de segurança, pois parece óbvio que o Brasil, mesmo distante do front onde os grupos terroristas combatem, estará no centro das atenções em 2016 – e a hipótese de um atentado no Rio de Janeiro deve ser considerada.

Mas não para Dilma. A presidente, que não faz muito tempo propôs “diálogo” com o Estado Islâmico, disse que “não podemos construir uma hipótese tão artificial como essa”. Como já se tornou proverbial em seu governo, a petista prefere negar a realidade a enfrentá-la – quer porque não se deu conta do problema, quer porque não sabe como resolvê-lo. Seja como for, é uma temeridade que a presidente aja como se a Olimpíada fosse um piquenique e que os terroristas não se interessem pelo Brasil porque o País, segundo Dilma, “não está no centro dessa questão” do terrorismo.

Nem é preciso ir muito longe para perceber o tamanho do erro de avaliação de Dilma. A América do Sul, que a presidente considera fora dos radares terroristas, foi palco de dois grandes atentados nos anos 90 – em 1992, contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires, com saldo de 22 mortos, e em 1994, contra a entidade judaica Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), também na capital argentina, que matou 85 pessoas. Embora ainda sem conclusão, a investigação do caso Amia levantou como uma das suspeitas mais prováveis a participação do grupo libanês Hezbollah em parceria com o Irã – atores, conforme a expressão empregada por Dilma, que estão “muito longe” da América do Sul.

Uma das características do terrorismo é não se preocupar com fronteiras. Por não travar guerras de um modo convencional e não ter um Estado a defender, os grupos terroristas são livres para atuar onde bem entendem, longe das convenções e dos limites aos quais os Exércitos regulares têm de se submeter. Basta que arregimentem um punhado de militantes fanáticos e tenham financiamento para suas operações.

O Brasil ainda não dispõe de legislação ou de mecanismos para inibir os canais clandestinos por onde trafega o dinheiro que abastece as organizações terroristas. Tampouco existe no País uma estrutura capaz de monitorar a entrada e a distribuição de armamento que hoje chega facilmente às mãos de narcotraficantes e poderia ser usado também por terroristas, como os que agiram na França.

O atentado em Paris parece ter disparado o alarme no Congresso Nacional, que vem há anos discutindo uma lei antiterrorismo. Esse debate sempre foi contaminado pela acusação, feita por partidos de esquerda, de que tal lei serviria para criminalizar os “movimentos sociais”. Enquanto isso, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por meio do Grupo de Ação Financeira Internacional (Gafi), cobrou do Brasil que finalmente se junte às nações sérias e adote uma dura legislação para combater as fontes de financiamento do terrorismo. Não por acaso, essa foi uma das exigências para que o Brasil pudesse se apresentar como candidato à sede olímpica.

No entanto, mais uma vez, o Brasil sob o PT aliena-se. Tem arroubos de grandeza, mas não cuida do essencial – e ainda brinca com fogo. Como sabem muito bem os parisienses e todas as outras vítimas da perfídia dos radicais suicidas, não convém contar com a sorte quando se trata de defender o País contra o terrorismo.

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