Conto do vigário

Nas eleições deste ano, o Senado teve a maior renovação desde o fim da ditadura militar

O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2018 | 03h00

Nas eleições deste ano, o Senado Federal teve a maior renovação desde o fim da ditadura militar. Em 2018, coube a cada Estado eleger dois senadores. Eram, assim, 54 cadeiras em disputa. Desse total, os eleitores elegeram 46 novos nomes. A taxa de renovação foi de 85%, numa indiscutível demonstração de que o eleitor quer uma nova política. Mais do que cansado, pode-se dizer que o cidadão está enojado das práticas políticas que se tornaram habituais no País. Contrariando boa parte das projeções, que previam um pequeno nível de renovação dos membros do Congresso, o eleitor foi às urnas no dia 7 de outubro mostrar que deseja algo diferente, muito diferente, do que vem prevalecendo nos últimos anos em Brasília.

Conseguiu-se a almejada renovação da Câmara e, principalmente, do Senado. Mas o que ouve é que o nome que desponta para presidir o Senado no ano que vem é do alagoano Renan Calheiros, cabal personificação da velha política.

É assustador que, com tantos novos senadores, não se tenha conseguido pensar em nenhum outro nome para a presidência do Senado. Os hábitos e práticas políticas de Renan são conhecidos. Por exemplo, apesar de pertencer ao MDB, partido do presidente Michel Temer, Renan Calheiros fez insistente oposição à reforma da Previdência, com discursos demagógicos e populistas.

Em vez de apoiar as reformas de que o País tanto precisa, o senador alagoano preferiu aliar-se ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em negociações que selam o atraso de Alagoas. O Estado natal de Renan Calheiros teve o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nas edições de 2000, 2010 e 2014. Em vídeo publicado em junho nas redes sociais, Renan declarou apoio à então pré-candidatura do presidiário petista. “Lula é candidato a voltar à Presidência da República, tem direito de fazer campanha porque não cometeu crime algum e foi condenado sem provas”, disse o senador, que tenta assumir pela quarta vez a presidência do Senado. Ele já presidiu a Casa de 2005 até 2007, de 2013 a 2015 e de 2015 a 2017. Em 2007, renunciou ao cargo após escândalo de corrupção.

Seus malabarismos político-partidários vêm de longa data. Se nos últimos anos tem sido um aliado habitual do sr. Lula da Silva, Renan Calheiros já esteve no lado oposto. Em 1989, filiado ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN), foi um dos principais assessores do então candidato à presidência da República Fernando Collor de Mello. Meses depois, Renan, líder do governo no Congresso, foi quem defendeu o pacote de medidas econômicas de Collor, que incluía o famoso confisco da poupança.

Mas Renan Calheiros não é conhecido apenas pelos cargos que ocupou ao longo de quatro décadas de vida política. Fez-se notório por seu contumaz envolvimento com fatos definidos no Código Penal. Renan Calheiros responde a mais de uma dezena de processos e inquéritos criminais. Diversas vezes seu nome foi citado em escândalos de corrupção relacionados à Operação Lava Jato. Num dos casos, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou ao Supremo Tribunal Federal denúncia contra Renan Calheiros, entre outros políticos, por corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a Transpetro, subsidiária da Petrobrás. Noutro caso, ele é investigado por um suposto esquema de desvio de recursos do Postalis, fundo de pensão dos Correios.

Submete o eleitor a um conto do vigário a ampla campanha habilmente desenvolvida por Renan Calheiros para ocupar a presidência do Senado no próximo biênio. As eleições mostraram que a população deseja que o País ande para a frente e renove suas práticas políticas. Renan, de volta à presidência do Senado, representaria um total retrocesso e uma evidente quebra de expectativa. Seria como se o que ocorre no Congresso não tivesse nenhuma relação com a vontade da população. É uma lástima que Alagoas tenha sido capaz de eleger mais uma vez o senador Renan Calheiros, mas isso de forma alguma é pretexto para ampliar o problema, alçando-o à presidência da Casa. A tolerância do brasileiro tem limites.

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