Contraste de humores

Há um contraste notável - e intrigante à primeira vista - entre o otimismo do consumidor e a preocupação do empresário industrial, captados em sondagens da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). As pesquisas parecem mostrar dois grupos em países diferentes e em condições econômicas muito distintas, de prosperidade e segurança, no primeiro caso, e de baixo crescimento ou mesmo estagnação, no outro. Mas o país é o mesmo, chama-se Brasil, e esses dois mundos, estranhamente, coexistem na realidade e nas estatísticas oficiais e também naquelas divulgadas pelas fontes privadas de maior credibilidade. A solução do mistério remete às deficiências da política econômica.

O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2012 | 02h05

A confiança do consumidor aumentou em outubro, depois de três meses de estabilidade, segundo a Sondagem da CNI. O indicador subiu 2,8% em um mês e situou-se 3,1% acima daquele registrado um ano antes. Foi o maior nível desde janeiro de 2011. Os entrevistados indicaram melhores expectativas em relação à renda pessoal, ao mercado de empregos, à inflação, à situação financeira e ao endividamento.

Só houve recuo - de 1% - em relação às compras de bens mais caros, como eletrodomésticos, mas o índice foi o mesmo de outubro de 2011. De modo geral, os consumidores se mostraram mais otimistas que os dirigentes da indústria ao longo de 2011 e de 2012. Como explicar essa diferença numa economia dependente da indústria como foco de dinamismo e de empregos de maior qualidade?

Em outubro, a confiança do empresário industrial voltou a cair, depois de dois meses de alta, segundo a sondagem da CNI. O indicador diminuiu nos setores de construção, extração mineral e transformação. Neste segmento, a piora foi registrada em 20 dos 28 ramos cobertos pela pesquisa. No conjunto, houve uma avaliação pior tanto da situação presente da economia brasileira e da empresa quanto das perspectivas dos próximos seis meses.

O Sensor da Fiesp, restrito ao universo paulista, também mostrou uma redução da confiança dos industriais em outubro. Depois do pico alcançado em março, tinha ocorrido uma queda nos dois meses seguintes e um movimento de recuperação a partir de junho. Segundo os entrevistados, pioraram as expectativas em relação a mercado, emprego e investimento. Houve melhora em relação a estoque - detalhe já observado pelo pessoal da CNI, numa pesquisa nacional. Com menor volume de produtos armazenados, fica mais fácil a retomada da produção, mas a reativação depende também de outros fatores, como o câmbio e outros determinantes do poder de competição internacional. De toda forma, faltam esses detalhes nas duas pesquisas.

O indicador de nível de atividade da indústria paulista subiu 1,2% no terceiro trimestre e deve aumentar 1,1% no trimestre final, mas, apesar disso, o resultado geral do ano será 4,5% inferior ao de 2011, segundo o diretor de estudos econômicos da Fiesp. Há recuperação, mas menos intensa que a esperada há algum tempo, segundo afirmou.

O contraste entre as expectativas de consumidores e industriais fica menos estranho quando se consideram algumas peculiaridades do cenário brasileiro.

O emprego se manteve elevado, mesmo na crise, em parte graças ao setor de serviços, em parte por causa de cuidados tomados pelos industriais. Muitos preferiram manter o pessoal, mesmo em tempos ruins, para evitar a sequência dos custos de demissões e de recontratações. Além disso, a escassez de mão de obra qualificada em algumas áreas foi levada em conta.

Em segundo lugar, a massa de rendimentos, o crédito farto e estímulos fiscais restritos a alguns setores impulsionaram e continuam sustentando o consumo. A maior parte da indústria ficou à margem desses incentivos. Além disso, produtores estrangeiros supriram boa parte da demanda adicional, favorecidos por custos bem menores que os da indústria brasileira. A política anticrise cuidou muito mais do consumo que da produção. Mantido o emprego, o consumidor teria pouco motivo de queixa.

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