Convite à reflexão

Procuro conservar-me otimista. A experiência sugere, todavia, receber com reservas os projetos de governo divulgados pelos candidatos à Presidência da República. Descreio de palavras mágicas, com as quais se tenta iludir a realidade.

Almir Pazzianotto Pinto, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2010 | 00h00

Afinal, alguém já se perguntou sobre o significado, para o homem comum, da vitória de um ou de outra?

Que benefícios poderiam alcançar lugarejos remotos, ignorados pelo sistema de saúde, onde faltam escolas, professores e livros, não há água tratada e canalizada, o sanitário é a fossa ou o arbusto, o sabonete, a escova dental e o papel higiênico são produtos de luxo e a economia rasteja no terreno infecundo da subsistência?

Quando os eleitores dos grandes centros sentirem desejo de pesquisar a página Cidades no portal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), observarão ? atônitos, perplexos ? o número de municípios espalhados pelo País sem agência bancária, onde permanecem zerados os indicadores de mão de obra ocupada ou empregada.

Que medidas objetivas deverão aguardar, nos próximos quatro ou oito anos, os moradores de Cruzeta, Encanto, Zé Doca, Belágua, Chupinguará, Zabelê, Bodó, Acaicá, Barro Duro, Alvorada do Gurgueia e de centenas de outras pequenas comunidades cujos nomes pululam na pitoresca onomástica do nosso interior distante?

Não há, porém, necessidade de extensa caminhada para se perceber que a miséria econômica e política não é problema restrito a paragens remotas como a Vila do Baião Grande, situada no município de Tupanatinga, no interior de Pernambuco, onde famílias sobrevivem em extrema penúria. No entorno das capitais, ou do Distrito Federal, o quadro é alarmante e se manifesta por meio do desemprego, do subemprego, do trabalho precário, de crianças pedintes, de meninas prostituídas, do tráfico de drogas ? e na crescente espiral da violência, da qual ninguém se encontra a salvo.

São situações para as quais os governantes somente despertam quando alguma catástrofe mata, mutila e destrói, para logo caírem no esquecimento, ofuscadas por projetos miliardários, de forte apelo popular, como promoção da Copa do Mundo de 2014, a construção de fantásticos estádios, a implantação do trem-bala, a transposição do Rio São Francisco.

Milhões de eleitores não têm acesso a jornais, revistas e livros. Satisfazem-se com as notícias transmitidas pelo rádio, pela televisão, o que é pouco para se conservarem informados do que se passa na Praça dos Três Poderes, em Brasília, e nos governos estaduais. Voltados para as áreas de forte densidade eleitoral, os governantes entregam ao sabor da sorte aqueles que vivem à margem da economia, tratados como párias políticos.

A análise do perfil dos pretendentes ao Palácio do Planalto com chance de vitória gera mais perguntas do que respostas.

José Serra iniciou-se na vida pública presidindo a União Nacional dos Estudantes (UNE) e usou da palavra no trágico comício de 13 de março de 1964, organizado para apoiar as reformas de base defendidas por João Goulart. Foi o princípio do fim do governo, interrompido pelo golpe do dia 31. Após o exílio retornou a São Paulo, filiou-se ao MDB e integrou o governo Franco Montoro. Hoje no PSDB, deseja a Presidência da República. Disputou o cargo com Lula nas eleições de 2002 e foi derrotado. Elegeu-se prefeito de São Paulo, mas deixou de sê-lo para ganhar a corrida para o governo do Estado.

A candidata do PT-PMDB-PDT-CUT não ostenta folha equivalente de serviços. Dilma Rousseff surgiu de forma repentina nos altos escalões da vida pública. A adolescente assustada, mostrada na internet, cedeu lugar à matrona de aspecto sóbrio, detalhadamente produzida, determinada a assumir as responsabilidades que lhe deseja conferir o presidente Lula.

Marina Silva participa de atividades políticas desde o ingresso na Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Rio Branco, capital do Acre. Conhece a pobreza e a região amazônica. Enfrenta, entretanto, as deficiências do Partido Verde, o que lhe reduz as possibilidades de sucesso.

Ao comparar o desempenho dos candidatos, fica-me a sensação de que José Serra carrega a disputa como quem paga penitência. Marina Silva transmite a ideia de se encontrar investida de missão divina. Lembra-me um pouco Madre Tereza de Calcutá. Não creio que baste para fazê-la vencedora. Já Dilma Rousseff entregou-se à luta. Tem como cérebro e chefe do seu estado-maior o presidente Lula, cuja popularidade não encontra paralelo na História recente. E ainda conta com a ajuda do Bolsa-Família, formidável instrumento de captação de votos.

Os dados estão lançados. Dentro de poucas semanas teremos o novo presidente. O mandato é de quatro anos. Com alguma competência, permanecerá oito. Se for bom negociante, provavelmente fará o sucessor. Dada a fragilidade do Poder Legislativo, quem chefia o governo, controlando a "máquina" e detendo a chave do Tesouro, tem chance de instituir algo como uma dinastia partidária. Voluntariamente, ninguém abre mão do poder. Por sinal, o Ministério de Assuntos Estratégicos elaborou o "Plano Brasil 2022", que pressupõe o predomínio petista até 2026.

O momento é de crise moral e exige profunda reflexão. Aqueles que leem e analisam têm responsabilidade redobrada. O iletrado e o indiferente devem ser convidados a meditar sobre o significado do voto e a compreender que do resultado das eleições depende o futuro da criança, do jovem, da família, do trabalhador, do empresário.

Que cada cidadão seja combativo militante e saia a campo, pois é o caminho para melhorar o País e aprimorar a democracia.

ADVOGADO. FOI MINISTRO DO

TRABALHO E PRESIDENTE DO

TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO

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