Correa e o chavismo

A tomar pelo valor de face as primeiras declarações do equatoriano Rafael Correa depois de vencer as eleições presidenciais de domingo no primeiro turno, com cerca de 52% dos votos, a revolução bolivariana de Hugo Chávez teria pelos próximos quatro anos em Quito um baluarte tão seguro quanto o de La Paz, sob Evo Morales. "Estamos caminhando rumo ao socialismo do século 21", proclamou Correa, ecoando o bordão do caudilho de Caracas. "Aprofundar, radicalizar e acelerar" foram outros verbos que apensou ao termo socialismo. No governo desde 2006, ele conseguiu aprovar em setembro do ano passado uma nova Constituição, referendada por 64% dos votantes. À moda bolivariana, o texto "zerou" todos os mandatos eletivos, o que lhe permitirá candidatar-se à (re)reeleição em 2013.Mas, assim como a Carta equatoriana é inequivocamente mais moderada do que a da Venezuela e a da Bolívia, também o presidente Correa dá mostras de equilibrar a sua retórica socialista com uma visão sensata das realidades políticas sul-americanas. Apesar de seus lances espalhafatosos, como a suspensão dos pagamentos de parcela da dívida externa nacional de US$ 3,2 bilhões e a malsucedida tentativa de calote no BNDES, da qual teve de voltar atrás depois que o presidente Lula retirou o embaixador brasileiro em Quito, Correa cuida de manter a sua imagem a profilática distância das tintas mais carregadas do chavismo. Numa entrevista ao jornal espanhol El País, na terça-feira, por exemplo, ele negou a participação do Equador em um "eixo" que se estenderia de Caracas a La Paz. "Provavelmente viajei mais vezes para o Brasil do que para a Venezuela", comparou, destacando ainda que a liderança regional brasileira se caracteriza por um "profundo respeito" aos países vizinhos.Correa, a rigor, é um reformista que não se deixa embalar pelas suas próprias tiradas - e, quanto mais não seja, com a sua vitória num pleito que os Estados Unidos reconheceram ter sido "transparente e pacífico", o Equador parece se encaminhar para um período de estabilidade política e institucional inédito em sua história. (Basta dizer que nenhum dos três mais recentes antecessores de Correa conseguiu completar o mandato.) Aos 46 anos, esse economista formado nos EUA, que disparou para a popularidade denunciando a "partidocracia" equatoriana - como, antes dele, tantas outras estrelas em ascensão na América Latina que, no poder, se transformaram em autocratas ou déspotas -, teve a sorte de o seu primeiro período de governo coincidir com a alta estratosférica das cotações do petróleo, a principal riqueza de seu país.Isso lhe permitiu implantar amplos programas sociais e expandir os investimentos públicos em geral. Ele triplicou os gastos do Estado com educação e saúde, além de dobrar o valor do auxílio concedido às mães solteiras. Isso obviamente aumentou o seu prestígio popular, aprofundando, na percepção da grande maioria dos equatorianos, a distância entre ele e os políticos tradicionais, seus adversários. (O principal deles, o ex-presidente Lucio Gutiérrez, não chegou a obter 1/3 dos votos na eleição da semana passada.) Mas a bonança durou pouco. No primeiro trimestre, as receitas equatorianas com o petróleo caíram 67%, comprometendo gravemente o orçamento do país. Devido à crise, as remessas dos equatorianos no exterior ficaram cinco vezes menores. Em outras circunstâncias, Correa teria plenas condições políticas para "aprofundar, radicalizar e acelerar" as mudanças prometidas. Segundo resultados ainda parciais, o seu partido, Aliança País, conquistou praticamente a metade das 124 cadeiras da Assembleia Nacional. Para a maioria absoluta, bastará ao governo o apoio de uma ou outra das pequenas bancadas, como a do Movimento Popular Democrático, que deverá eleger sete parlamentares. De que servirá essa supremacia, na conjuntura recessiva, é uma questão em aberto. Para a região, um dirigente equatoriano politicamente sóbrio será evidentemente uma boa notícia. Servirá de contraponto à truculência de Chávez. A última das quais é o caso criado com o governo do Peru por ter o presidente Alan García concedido asilo político ao líder oposicionista venezuelano Manuel Rosales, que fugiu para Lima para não ser preso.

, O Estadao de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 00h00

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