Corrupção e crise econômica

Não basta ser economista, juntar números e conhecer uma porção de fórmulas para discutir o futuro da economia brasileira. É preciso saber da Operação Lava Jato, acompanhar o processo de impeachment e levar em conta a enorme incerteza política para avaliar, sempre com muita prudência, os desdobramentos e a possível superação da crise econômica. Nenhuma entidade multilateral ousa especular sobre o futuro dos negócios no Brasil sem mencionar esses fatores. A expressão Lava Jato aparece no recém-divulgado relatório do Banco Mundial sobre perspectivas da economia global. Economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) incluíram em seu vocabulário, há alguns anos, a expressão contabilidade criativa, pouco antes de passarem a usar mais abertamente as palavras investigação, escândalo e corrupção. Que a recessão brasileira continuará neste ano e provavelmente no próximo é um consenso. Mas qualquer previsão de maior alcance depende de um jogo de poder ainda muito incerto, e também isso é um consenso.

O Estado de S. Paulo

09 Junho 2016 | 03h00

O Banco Mundial passou de 3,9% para 4% a contração econômica prevista para o Brasil em 2016. O crescimento de 1,3% estimado em janeiro para 2017 foi substituído por uma retração de 0,2%. Pelas novas contas, a produção só voltará a aumentar em 2018, com um modesto avanço de 0,8, bem menos de metade da expansão média de 2,1% projetada para a América Latina e o Caribe.

O cenário de contas públicas desarrumadas, baixo investimento e inflação elevada é o mesmo apresentado na maior parte das análises de instituições oficiais e privadas.

A lista de recomendações seria previsível, se incluísse apenas providências econômicas. Mas o cenário é mais complicado. As incertezas sobre a Operação Lava Jato e sobre o processo de impeachment são mencionadas no documento Perspectivas Econômicas Globais quando se trata de explicar a baixa confiança dos investidores. Quatro páginas adiante o assunto é retomado: “Se as incertezas políticas persistirem, a implementação das iniciativas fiscais pertinentes poderão ser atrasadas e isso afetará o investimento”.

Há um forte contraste, no relatório, entre o cenário argentino e o brasileiro. A contração de 0,5% estimada para a Argentina em 2016 é atribuída a ajustes macroeconômicos em curso e a reformas iniciadas pelo governo do presidente Macri. Entre os exemplos são citados o corte de subsídios ao consumo de eletricidade, o fim dos controles cambiais e o acerto com os credores externos.

Segundo os autores do relatório, pode-se prever maior confiança dos investidores, maior ingresso de capitais e um retorno ao crescimento já no próximo ano, com avanço de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Se o cenário se confirmar, Brasil e Venezuela se manterão como patinhos feios da América Latina, ao lado de um Equador prejudicado pela baixa dos preços do petróleo e pela valorização do dólar, sua moeda oficial.

No começo de junho a OCDE publicou sua revisão das projeções para a economia global. O novo relatório, assim como o do Banco Mundial, mostraria um quadro menos animador que o de janeiro, com recuperação lenta na Europa, ainda firme nos Estados Unidos e com menor dinamismo nos emergentes. Os economistas da OCDE, como haviam feito em abril os do FMI, cobraram mais estímulos fiscais dos governos do mundo rico, apontando o esgotamento dos incentivos monetários.

No caso do Brasil, a recessão estimada para este ano passou de 4% para 4,3%. O crescimento nulo calculado para 2017 converteu-se numa contração de 1,7%. No topo das explicações apareceram “a elevada incerteza política e as revelações sobre corrupção” como fatores de redução da confiança de investidores e consumidores. Dificilmente haverá consenso para reformas até novas eleições, diria alguns dias depois o economista Jens Arnold, um dos diretores da OCDE. 

Desmentir essa avaliação é o maior desafio para o presidente em exercício Michel Temer. O tapa na mesa, em seu primeiro grande pronunciamento, foi uma promessa de firmeza. Falta confirmar essa promessa.

 

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