Cracolândia, como sempre

Se em toda a capital existem mesmo só 275 pontos de venda de drogas, é de perguntar por que eles ainda não foram desbaratados

O Estado de S.Paulo

22 Julho 2018 | 03h00

A proposta de uma Política Municipal Sobre Álcool e Outras Drogas, constante de projeto de lei do Executivo, em discussão na Câmara Municipal, e a presença muito forte do tráfico na região – apesar de um avanço no combate a ele desde o ano passado – colocaram o problema da Cracolândia novamente em evidência. E a divulgação do número de pontos de venda de drogas na capital levantado pela Polícia Civil – tão pequeno que chega a ser inacreditável – torna difícil entender as razões de sua persistência por tanto tempo na Cracolândia.

O governo do prefeito Bruno Covas parece ter condições de conseguir a aprovação do projeto. Principalmente porque em suas linhas gerais a nova política proposta – que tem como um de seus principais alvos a Cracolândia – vem encontrando boa receptividade até mesmo da parte de vereadores ligados à chamada “população de rua”, como mostra reportagem do Estado, com frequência reticentes a propostas do Executivo nessa área. A única ressalva que fizeram ao projeto é a criação por ele prevista de um cadastramento único dos usuários de drogas e álcool na cidade que sejam atendidos nos programas de saúde, assistência social e reinserção no mercado de trabalho.

Alega-se que o cadastro dificultaria a abordagem dos dependentes, sempre reticentes a fornecer informações pessoais. Mas esse não é um obstáculo difícil de ser superado, porque, como lembra a Prefeitura, os dados dos usuários de drogas da Cracolândia já são coletados para um cadastro – o Aplicativo de Seguimento dos Pacientes do Redenção (ASPR), que é um programa de recuperação dos dependentes. O objetivo do projeto seria apenas consagrar e aprimorar o que já existe.

O principal problema da nova política não é esse, portanto, mas o risco de se apresentar como uma solução para a grave situação dos dependentes de drogas e álcool, em especial da Cracolândia. Essa solução tem de levar em conta outras questões, não tratadas com a necessária clareza no projeto. Um exemplo é o da questão, por muitos tida como decisiva, de se exigir ou não a abstinência como um dos pressupostos para o tratamento da dependência. O projeto não se refere especificamente a ela. 

O que diz a Prefeitura é que, “se a escolha do paciente e do profissional não for a abstinência, existe a possibilidade do modelo de redução de danos”. Esse controvertido modelo considera possível reduzir os danos para quem opta por continuar consumindo drogas. Tal modelo é contestado por respeitados especialistas que não abrem mão da abstinência, como Anthony Wong, do Hospital das Clínicas. Ele é taxativo: “Nas empresas onde dou consultoria, se você adota a tolerância zero com o funcionário usuário de drogas, o consumo despenca. Se é tolerante, não”. 

Ou o modelo de redução de danos, que vem sendo aplicado na capital, apresenta resultados muito convincentes ou não haverá como contestar a afirmação de Wong.

Outra questão decisiva é a do combate ao tráfico, um dos pilares – ao lado da assistência social e médica para a recuperação do dependente e sua reinserção social – da solução do problema da Cracolândia e outros semelhantes. Apesar de algum avanço em seu combate desde o lançamento, há pouco mais de um ano, da grande operação destinada a acabar com a Cracolândia, como disse o ex-prefeito João Doria, o tráfico se reorganizou e logo voltou a agir ali com desenvoltura.

Continuam como sempre as prisões de traficantes na região, com a ocorrência esporádica de incidentes quando os dependentes saem em defesa de seus fornecedores e atacam policiais e agentes da Guarda Civil Metropolitana, como ocorreu mais uma vez no dia 19 passado. Nada disso, porém, afeta seriamente o tráfico.

Se em toda a capital existem mesmo só 275 pontos de venda de drogas, de acordo com mapeamento da Polícia Civil, número muito pequeno para seu território, é de perguntar por que eles ainda não foram desbaratados. Mais difícil de entender é como continua o tráfico na Cracolândia, uma área relativamente pequena.

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