Cracolândia, um ano depois

Número dos que frequentavam a área diminuiu sensivelmente, mas o restante se espalhou para as proximidades e para bairros vizinhos

O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 03h00

Um ano após a grande operação policial destinada a “acabar” com a Cracolândia, como prometeu o então prefeito João Doria – seguida de importantes iniciativas para a reurbanização da região –, a situação ali já está mudando, mas ainda não da maneira radical pretendida. E o problema dos dependentes de droga, embora com outras características, continua grave: o número dos que frequentavam a área diminuiu sensivelmente, mas o restante se espalhou para as proximidades e para bairros vizinhos. E o tráfico seguiu o mesmo caminho.

Como mostra reportagem do Estado, os dependentes têm hoje de dividir o território que antes dominavam com espigões residenciais que são erguidos rapidamente, e com desapropriações e demolições para dar lugar a outros já projetados. No Complexo Júlio Prestes, por exemplo, um dos mais importantes empreendimentos imobiliários da região, que ocupa a área da antiga Estação Rodoviária, 914 unidades de Habitações de Interesse Social (HIS) devem ser entregues até o fim do ano. A chegada dos novos moradores, que vai exigir medidas rigorosas para sua segurança, pode acirrar ainda mais os conflitos entre dependentes e agentes de segurança, que aumentaram desde que as mudanças começaram.

No início de 2017, o número de dependentes era estimado em 1,7 mil e, hoje, calcula-se que oscile entre 400 e 800 dependendo do horário. Espera-se que diminua ainda mais com o progresso da revitalização da área. Muitos se deslocaram uma quadra e se concentram agora no cruzamento da Rua Helvétia com a Alameda Barão de Piracicaba. Grupos menores foram para locais próximos como a frente da Estação Pinacoteca do metrô, a Avenida Duque de Caxias e a Rua Mauá. Sem falar nos que, em menor número, se espalham por ruas de Santa Cecília e Higienópolis. Pequenas cracolândias tendem a se formar mesmo em bairros mais distantes.

O avanço no combate ao tráfico também é inegável. As barracas que vendiam droga na região, a qualquer hora do dia e da noite, foram desmontadas e, segundo a Secretaria da Segurança Pública, a ação mais rigorosa da polícia levou também à prisão em flagrante de 1.207 pessoas e à apreensão de 243 adolescentes. Mas o tráfico rapidamente se reorganizou e se adaptou à nova realidade.

O Primeiro Comando da Capital (PCC), dominante na região, “terceirizou” a atividade para pequenos traficantes independentes, capazes de agir com maior flexibilidade, mas cobra deles uma taxa e mantém o controle do tráfico. Isso exige da polícia igual agilidade, se estiver mesmo determinada a manter a pressão sobre o tráfico que levou aos progressos feitos no ano passado.

O ex-governador Geraldo Alckmin acertou quando, por ocasião da operação policial do ano passado, para conter o otimismo dos mais entusiasmados com o fim da Cracolândia, como Doria, advertiu que esse é um problema que “não se resolve com um estalar de dedos”. A urbanização da região, com obras como a construção de grande número de habitações sociais, tem tudo para ajudar a tornar realidade a revitalização do centro. O que está sendo feito é um passo importante nesse sentido. Se vingar, como se espera, será um indiscutível ganho para a cidade.

Mas quanto ao problema dos dependentes e do tráfico – que deu origem à Cracolândia e pode repetir em outros pontos da cidade a degradação que produziu ali – a situação é diferente. O progresso na abordagem e no tratamento dos dependentes, para promover sua reinserção social, foi pequeno. É um problema difícil, que exige tempo e nunca é inteiramente resolvido, como mostram experiências semelhantes mesmo de países desenvolvidos.

O que se espera do poder público, por isso, é uma política de longo prazo, combinando oferta de assistência social e médica aos dependentes e combate sem trégua ao tráfico. Isso se impõe também porque a disseminação do crack pelo interior do Estado – ele já está presente em 558 dos 645 municípios – mostra que o problema é muito maior do que a Cracolândia.

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