Creche não é prioridade

Dilma Rousseff foi eleita em 2010 como a mãe do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente Lula vendeu a ideia de que, ainda que a sua candidata fosse politicamente inexperiente, ela seria uma competente administradora. No entanto, cada vez mais se confirma a profunda inaptidão da presidente Dilma tanto para a política quanto para a administração. Mais um dado revela o fracasso administrativo de seu governo. De acordo com levantamento da ONG Contas Abertas, das 5.772 creches e pré-escolas prometidas pelo PAC 2, o governo federal entregou menos de 14%.

O Estado de S.Paulo

16 Março 2015 | 02h05

Ao ser lançado em 2007, o PAC foi tratado como o grande impulsionador do crescimento econômico, com cinco grandes frentes: melhoria da infraestrutura, estímulo ao crédito, melhoria do marco regulatório ambiental, desoneração tributária e medidas fiscais de longo prazo. Posteriormente, o governo federal fez a seguinte avaliação: "O PAC promoveu a retomada do planejamento e execução de grandes obras de infraestrutura social, urbana, logística e energética do País, contribuindo para o seu desenvolvimento acelerado e sustentável. (...) Em 2011, o PAC entrou na sua segunda fase, com o mesmo pensamento estratégico, aprimorados pelos anos de experiência da fase anterior, mais recursos e mais parcerias com Estados e municípios, para a execução de obras estruturantes que possam melhorar a qualidade de vida nas cidades brasileiras".

Esse discurso ficou apenas no papel. O que aconteceu foi outra coisa. Na comparação com a série histórica recente, os quatro anos do primeiro mandato de Dilma Rousseff são recordistas de baixo crescimento. E isso sem falar especificamente do resultado do ano passado. De acordo com a prévia do Produto Interno Bruto (PIB), divulgada recentemente pelo Banco Central, em 2014 houve uma retração de 0,15% no PIB nacional. Ora, quando não há crescimento, como se falar honestamente em aceleração do crescimento?

Mesmo num cenário de dificuldades econômicas, era de esperar, no entanto, que a presidente Dilma Rousseff ao menos tivesse preservado do fracasso algumas áreas prioritárias, especialmente aquelas por ela mesma selecionadas. Num governo que se apresenta como defensor das mulheres, uma dessas áreas deveria ser, sem dúvida, a criação de creches. Mas mesmo aí o governo de Dilma Rousseff falhou.

De janeiro de 2011 a outubro de 2014, foram concluídas apenas 786 creches e pré-escolas, enquanto o governo federal havia prometido a entrega de 6 mil unidades. E, de acordo com o último balanço do PAC 2, ainda levará bastante tempo para o restante das creches e pré-escolas ser finalizado.

Mil e seiscentas unidades ainda nem saíram do papel e 1.126 estão no estágio de "ação preparatória", isto é, antes do processo licitatório. Outros 478 empreendimentos estão na fase de licitação de obra. Quanto às restante 3.345 unidades, estão "em obras". Estar "em obras" não significa, necessariamente, que a construção já tenha se iniciado, pois também se incluem nessa fase os projetos com ordem de início autorizada.

De acordo com a ONG Contas Abertas, o Estado do Piauí apresentou o pior resultado na construção das creches. Das 99 creches prometidas, 91 delas não tinham saído do papel. Em segundo lugar vem o Amazonas - das 202 unidades previstas, 104 não tinham iniciado as obras. Logo atrás está o Rio de Janeiro, no qual 112 das 239 creches prometidas não começaram a ser construídas.

Os números não deixam dúvida: as creches não são uma prioridade para o governo de Dilma Rousseff. A presidente parece não se dar conta de que as creches são um dos temas que mais afetam o dia a dia das mulheres, e não apenas das atuais mães, mas também das futuras, que querem planejar com tranquilidade o nascimento dos seus filhos e tornar compatível a maternidade com a sua profissão. Sem creches, as mulheres se tornam mais vulneráveis. Sem creches, o empoderamento da mulher é apenas um discurso oco, desconectado da realidade.

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