Credibilidade, o maior déficit

Se o governo for incapaz de consertar a economia, pelo menos a recessão fará sua parte e imporá algum freio aos preços. Esta parece a mensagem mais importante – e mais otimista – das cerca de cem instituições de mercado consultadas pelo Banco Central (BC), em sua pesquisa Focus. Pela 14.ª semana consecutiva os analistas do setor financeiro e de consultorias elevaram sua projeção de inflação para 2015, desta vez para 9,15%, mas baixaram mais uma vez a estimativa para 2016. A alta de preços projetada para o próximo ano caiu de 5,44% para 5,4% de uma sondagem semanal para outra. Há um mês estava em 5,5%. Mas o preço está indicado na mesma tabela. Continuam piorando as expectativas em relação à atividade econômica.

O Estado de S. Paulo

21 Julho 2015 | 03h00

A contração prevista para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 passou de 1,45% para 1,7% em quatro semanas, com uma escala em 1,5% na pesquisa imediatamente anterior. A expectativa de recuperação no próximo ano é cada vez mais tênue. O crescimento projetado para 2016 passou de 0,7% há um mês para 0,5% na penúltima sondagem e 0,33% na recém-divulgada pelo BC.

Para a produção industrial continua estimado um encolhimento de 5% neste ano. Para o próximo, houve um retorno à expectativa de crescimento de 0,5%, a mesma de quatro semanas antes, depois de uma passagem por 1,4%. De toda forma, essa recuperação, se confirmada, será insuficiente para a volta ao nível de dois anos antes.

Há um vínculo muito claro entre a expectativa de uma economia muito fraca, neste ano e no próximo, e a aposta em uma inflação consideravelmente mais baixa em 2016, embora ainda longe da meta de 4,5%. As poucas melhoras previstas poderão ocorrer, quase certamente, sem grande contribuição do poder público, além, é claro, da alta de juros prevista para este ano.

A recessão também deverá resultar, como já vem ocorrendo, em melhora do saldo comercial externo, com as importações caindo mais que as exportações. Também isso será consequência da forte contração da demanda interna.

É difícil de achar, neste momento, quem acredite no resultado fiscal prometido pelo governo, um superávit primário de R$ 66,3 bilhões para pagamento de juros, um impulso importante aos investimentos em infraestrutura e, enfim, a abertura de um caminho claramente traçado de recuperação econômica a partir de 2016.

Há muitos motivos, todos ponderáveis, para a baixa expectativa quanto ao sucesso do esforço governamental. É muito difícil ser otimista, quando se avaliam a crise política, a resistência no Congresso às medidas de ajuste, a fraqueza da presidente Dilma Rousseff e as divergências na cúpula do Executivo em relação à política fiscal. A presidente mostra-se incapaz de apoiar de forma inequívoca um firme trabalho de arrumação das contas. Isso deixa espaço para disputas entre ministros e para dúvidas quanto à seriedade da política.

Com arrecadação em queda e orçamento muito rígido, o dinheiro à disposição do governo é muito curto, mas o ativo mais escasso para as autoridades no momento é a credibilidade. Nessas condições, é forçoso dar alguma razão ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, quando ele recusa, publicamente, a ideia de baixar a meta fiscal em 2015. Se isso for entendido como afrouxamento da política fiscal, o resultado será muito ruim. É difícil de evitar essa interpretação, quando se unem contra o ajuste ministros favoráveis a maiores gastos e parlamentares conhecidos por sua aversão às políticas sérias e responsáveis.

Empenhado em alcançar a meta de qualquer jeito, Levy sai à caça de receitas extraordinárias, programando a abertura de capital da Caixa Seguridade, tentando taxar dinheiro depositado no exterior, leiloando a folha de pagamento e assim por diante. Nenhuma dessas medidas configura um ajuste real, isto é, duradouro. O ministro estaria obviamente mais confortável, até para baixar a meta fiscal, se o governo tivesse credibilidade. Mas credibilidade começa pela atitude clara, inteligente e responsável de quem chefia o governo.


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