Crime e castigo

Crise econômica, com a indústria recuando e o PIB estacionário, se não decrescente, na contramão da China e Índia e, na América Latina, de México, Colômbia, Peru e Chile. Crises hídrica e de energia, que ameaçam a população com a escassez exigente de racionamento. Crise de segurança, com a disseminação generalizada da violência, os Virgulinos Lampiões que disputavam áreas rurais substituídos pelos Fernandinhos Beira-Mar, que disputam áreas urbanas entre si e com milícias delinquentes. Crise social, com a educação capengando na mediocridade e o SUS beirando o caos. E por aí vai: um espectro abrangente de crises de toda ordem. Por que isso?

Mario Cesar Flores, O Estado de S.Paulo

02 Março 2015 | 02h05

A responsabilidade maior cabe naturalmente à mediocridade da nossa gestão político-administrativa. Presente em toda a História do País e agravada no século 20, caracterizado pela complexidade de seus problemas políticos, sociais e econômicos e pelo grande e rápido aumento da população e da urbanização desordenada, ela está merecendo uma análise que a situe no nosso contexto atual. Iniciemos essa análise com uma breve menção a um estilo de apresentação desse tema na mídia, em particular na TV - estilo que realça sensacionalisticamente uma parte da verdade: a que interessa ao sensacionalismo. A parte omitida, que de fato não sensibiliza o ânimo propenso à diversão espetacularizada da maioria dos brasileiros, é exatamente a razão nuclear da análise pretendida neste artigo.

Quando noticiam espalhafatosamente calamidades ou quaisquer acontecimentos graves que vitimam o povo, apresentadores de programas que exploram o sensacionalismo exacerbam suas manifestações com observações como (um exemplo que sintetiza o estilo) "...país sem energia, sem água, sem segurança, sem vergonha na cara 'destes' (?) governantes...", geralmente complementadas por chavões apelativos, do tipo "onde estão os políticos e governantes?". Eis aí a questão central: os políticos e governantes estão confortavelmente seguros onde os votos dos milhões de cidadãos vítimas das crises e calamidades os colocaram, credenciando-os a governar, legislar e montar a estrutura administrativa - montagem em que a competência é secundária ante o patrimonialismo e o clientelismo que, há séculos, conspurcam a máquina burocrática brasileira. Há séculos, mas exponenciados em anos recentes, quando a complexidade do mundo moderno vem exigindo mais competência!

A qualidade insatisfatória da gestão tem origem, portanto, na também insatisfatória qualidade da escolha dos gestores pela massa de eleitores com o direito político de fazê-la - no caso, o direito do voto -, mas de frágil consistência cívica para bem exercê-lo; os maiores responsáveis pela gestão do País e de suas crises são eleitos pelos que reclamam da gestão político-administrativa medíocre - reclamam, mas elegem e reelegem os agentes da gestão deficiente... A oferta (de candidatos) já em si medíocre é complementada pela escolha (do candidato) indiferente à qualidade, porque grande parte do eleitorado está insatisfatoriamente preparada para avaliá-la, quando não simplesmente desinteressada em fazê-lo.

Esta é a realidade: estamos politicamente pautados por um modelo estruturado em parâmetros do direito em princípio corretos, mas moralmente deslegitimado pela insatisfatória (sejamos complacentes...) condução dos grandes problemas nacionais pelos eleitos pelo povo. O povo é, portanto, agente participante da realidade e por ela também responsável. A crítica apresentada na mídia, tanto a sensata e equilibrada como a sensacionalista, escamoteia sistematicamente este "detalhe": a gestão política não se autonomeia, é escolhida livremente pelos que vivem as consequências da escolha. Livremente em tese, porque a liberdade é prejudicada por ilusões que encontram campo fértil na insegurança cívico-mental da grande massa.

Estamos politicamente balizados pelo que pode ser resumido simbolicamente no sugestivo título de Dostoievski Crime e Castigo. O crime ou, adaptando Dostoievski ao tema, o grande erro político: a precária escolha dos gestores do País. O castigo: a gestão precária, de consequências penosas incidentes sobre ao atores da escolha. Um círculo vicioso em que as insuficiências na escolha se refletem no seu produto, num processo tendente à continuidade no tempo.

Evidentemente, não se trata aqui de aliviar a culpa inquestionável da política e dos políticos. O que está sendo posto para a ponderação do leitor é a costumeira análise incompleta da questão. Criticar os políticos, em geral com veemência teatralizada, dá "ibope"; já a critica ao povo eleitor dos políticos realmente criticáveis não sensibiliza, quando não é acusada de antidemocrática!

Sair disso sem trauma político - ou seja, no respeito ao paradigma democrático - não será fácil, até porque a situação atual não é mal vista por muitos agentes políticos eleitos no quadro da fragilidade cívica de parte ponderável do eleitorado (na verdade o statu quo os atende...). Uma hipótese de solução talvez seja a emersão de um núcleo de políticos positivos, dispostos a enfrentar o problema, obviamente correndo risco eleitoral no curto prazo, na esperança de que, com suas propostas construtivas - no direito eleitoral, no caótico sistema partidário -, o círculo vicioso acabará sendo rompido. De início, provavelmente no tocante aos cargos do Poder Executivo dos três níveis da Federação, que interessam mais ao nosso povo, propenso historicamente ao messianismo sebastianista.

Sem a solução do problema sintetizado no "crime e castigo" e a consequente superação do clima de crises graves e generalizadas o Brasil continuará tropeçando nos problemas do desenvolvimento interno e do complexo mundo do século 21 - situação incoerente com o que lhe augura seu potencial, que não vem sendo competentemente usado.

*Mario Cesar Flores é almirante 

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