Crise, dólar e comércio

A indústria continua muito mal no comércio exterior, com exportações bem menores que as do ano passado, mas, com algum otimismo e boa disposição, é possível enxergar algum efeito benéfico do câmbio nas transações internacionais.

O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2015 | 03h00

O exemplo de boa visão é dado pelos economistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo eles, o “efeito do real depreciado é positivo, mas gradual”. Essa é a manchete do último boletim com indicadores de abertura comercial divulgado pela entidade. Embora cautelosa, essa avaliação parece confirmar as expectativas habituais. De acordo com o senso comum, o dólar em alta deve baratear os produtos brasileiros no mercado externo, tornando-os mais atraentes para o comprador estrangeiro. Ao mesmo tempo, os produtos importados devem ficar mais caros e, portanto, menos competitivos no Brasil. As boas consequências, no entanto, ainda são pouco sensíveis.

Segundo o boletim, a participação do comércio exterior no faturamento das empresas cresceu 0,6% e chegou a 19,2% na passagem do primeiro para o segundo trimestre. A medida corresponde, nos dois casos, aos valores acumulados em quatro trimestres. Essa proporção é conhecida, no jargão especializado, como coeficiente de exportação. Em relação ao segundo trimestre do ano passado o ganho foi de apenas 0,3%. Na direção oposta do comércio exterior, a parcela dos importados no mercado interno de bens industriais continuou em 22%, sem mudança entre o primeiro e o segundo trimestres, e se manteve quase igual à de um ano antes (21,8%). Os dois coeficientes, o de exportação e o de penetração de importações, seguiram trajetórias opostas a partir de 2007, o ano anterior ao começo da crise global.

O novo quadro mantém uma velha característica brasileira. A indústria de transformação, com exceção de uns poucos segmentos, continua menos integrada que a extrativa no comércio internacional. No setor de transformação, o coeficiente de exportação passou de 15,3% para 16% nos últimos dois trimestres. Na atividade extrativa, de 62,9% para 67%. O contraste ocorre também no caso da importação (20,4% ante 55,4%, no último trimestre).

A depreciação do real, no entanto, deve explicar apenas em parte esses números. O quadro fica mais claro quando se levam em conta outros fatores, como o baixo nível de investimentos da indústria nacional, a mão de obra muito menos produtiva que a dos países concorrentes e a tributação irracional, entre várias desvantagens. É preciso, além disso, levar em conta a devastadora mistura, raramente encontrada na maior parte do mundo, de recessão e inflação dos preços ao consumidor. 

Uma visão mais ampla do comércio exterior pode tornar mais claros todos esses pontos. O saldo comercial só tem melhorado neste ano porque as importações têm diminuído mais que as exportações. De janeiro a julho as vendas ao exterior, de US$ 112,9 bilhões, foram 15,5% menores que as de igual período de 2014. A redução é em parte atribuível à queda de preços dos produtos básicos, mas, mesmo assim, o comércio brasileiro continua sustentado pelas vendas de bens agropecuários e de minérios. As exportações de manufaturados foram 9,4% inferiores às de um ano antes e o setor continuou amplamente deficitário, mesmo com o câmbio mais favorável. Mas o aperto no mercado interno deve ter levado parte dos industriais a um esforço maior para exportar, mesmo sem grandes ganhos.

Do lado das compras de produtos estrangeiros, 19,5% menores que as de janeiro a julho de 2014, o efeito da recessão é bem visível. Caíram tanto as importações de artigos de consumo e de produtos intermediários como as de máquinas e equipamentos. Desemprego, forte inflação no varejo e muita insegurança têm desestimulado consumidores e empresários. A crise política tornou o ambiente mais enevoado em todos os segmentos da produção, do investimento, do crédito e do consumo. O papel do câmbio, neste cenário, parece ainda modesto.

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