Crise, indignação e vergonha

A crise não poupa quase ninguém. Para ajustar seus orçamentos às dificuldades que passaram a enfrentar, os brasileiros, em sua grande maioria, estão mudando, para pior, seu padrão de vida e de consumo. Cortaram despesas com viagens, saídas com amigos para lazer, compras de produtos de beleza, serviços como TV por assinatura e telefone celular, cuidados com a saúde e a forma física, entre outras. Parte deles procura alguma renda extra, mas é grande a insegurança com relação à preservação de sua renda habitual. O pior é que, para a imensa maioria, não há esperança de que a situação comece a melhorar ainda neste ano.

O Estado de S. Paulo

15 Abril 2016 | 03h00

É um cenário previsível, por causa do agravamento da crise, que começou a ficar mais clara em 2014, no fim do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, e se intensificou no segundo. Depois de um pífio crescimento de 0,1% em 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro encolheu 3,8% em 2015 e deve registrar neste ano queda igual ou pior do que a do ano passado. No ano passado, 2,6 milhões de brasileiros entraram na fila dos desempregados. Em janeiro, conforme a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, a taxa de desocupação havia saltado para 9,5% (tinha sido de 6,8% em janeiro do ano passado). Esse índice mostra que o número de desempregados no País alcançou 9,62 milhões de trabalhadores, um recorde histórico.

Embora esperado, o corte de gastos pessoais e familiares imposto pela crise alcançou proporções surpreendentes. De acordo com pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 85,9% dos brasileiros foram obrigados a ajustar seus orçamentos para enfrentar a crise.

Das pessoas entrevistadas, 75,5% deixaram de viajar ou reduziram seus gastos com esse item; 71,3% reduziram as saídas com amigos para bares e restaurantes; 56,8% deixaram de gastar com produtos de beleza; 30,7% cancelaram serviços como internet e celular e 28,9% pediram o desligamento do serviço de TV por assinatura; 79,9% deixaram de comprar produtos a que estavam acostumados, substituindo-os por marcas mais baratas. Praticamente 9 entre 10 pesquisados (87%) agora dedicam mais tempo na pesquisa de preços e 8 entre 10 evitam comprometer sua renda com compra de roupas e calçados.

As causas para mudança tão acentuada nos hábitos de consumo e, consequentemente, no tipo e na qualidade de vida dos brasileiros são conhecidas. “A inflação, os juros elevados e o desemprego pioraram a situação financeira das famílias e, muitas vezes, exigem mudanças no padrão de gastos para se readequar à nova realidade”, diz a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. Pode até haver um efeito positivo do novo comportamento do brasileiro. “Apesar do momento difícil, essa é uma hora propícia para desenvolver hábitos mais saudáveis e evitar desperdícios com compras desnecessárias”, diz a economista.

Melhor seria se a adoção desses hábitos economicamente saudáveis resultasse de decisão determinada pela consciência e sensatez do cidadão, não da imposição de uma crise que continua a se aprofundar. A indústria já foi duramente afetada pelos problemas causados pelos erros da política econômica do governo Dilma e pelo agravamento da crise política em que a presidente da República está envolvida. Este, na opinião de economistas ligados ao comércio, será o ano de ajuste do setor de serviços, como parecem antecipar os dados que mostram a notável mudança da estrutura de gastos das famílias.

Não há muita esperança de superação relativamente rápida da crise. Praticamente 9 entre 10 entrevistados (86,8%) consideram a crise grave ou muito grave e têm pouca esperança de que a situação comece a melhorar ainda este ano. Dos entrevistados, 73,6% não imaginavam, há quatro anos, que a situação econômica pudesse se deteriorar tanto. Estão indignados (80,1%) ou envergonhados (71,4%) com a situação atual.

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