Crise, partido, nação

Ganhou a solidez própria do senso comum a definição de crise como intervalo acidentado e cheio de riscos entre o velho, que muitas vezes não morre, e o novo, cuja afirmação não é linear. Vale para a trajetória dos países e a de seus partidos significativos, cuja história, segundo outra indicação conhecida, é um aspecto “monográfico” da história mais ampla do contexto nacional e internacional em que atuam.

Luiz Sérgio Henriques, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2016 | 03h00

Os 36 anos do Partido dos Trabalhadores, há quase 14 instalado no poder central, são uma ocasião privilegiada para pensar o partido e nosso país. A trajetória daquele teve impacto forte neste, mobilizando setores genericamente ditos “subalternos” e distintas tradições culturais, reunidos sob um grupo dirigente capitaneado por um operário “autêntico”, formado “a partir de baixo” – e já nisso muito diferente de agrupamentos precedentes da esquerda, habituados ao cálculo político e, ainda quando proscritos, desejosos de se integrar ao sistema partidário e ao jogo parlamentar.

É tentador investigar a forma como Lula e seu PT ajudaram a moldar a experiência inaugurada com a Carta de 1988, quais valores e orientações fomentaram entre eleitores e cidadãos, mesmo não filiados, e quais, em troca, relegaram a plano subordinado. Um papel que está longe de ser negligenciável, dado o caráter praticamente único desse partido diante da fragilidade dos demais. Diferentemente do PT, as outras agremiações, ainda que relevantes, têm uma vida interna rarefeita, que só se adensa nas conjunturas eleitorais, e relações intermitentes com a vida social, dando a impressão de ainda não terem compreendido a fundo as características de massa da nossa democracia.

Daquele núcleo sindical decisivo, transposto sem maiores mediações para a arena política, guarda o petismo traços até hoje não superados. O dado social bruto, “concreto e objetivo”, conferiu aura de radicalidade classista avessa a maquinações de corredores e gabinetes refrigerados. A grande e a pequena política se diferenciariam pelo fato de a primeira se manter exclusivamente, ou quase, com os ouvidos colados ao chão social, a cujas diferentes e conflitantes manifestações se recusava o trabalho da síntese propriamente política. Pequena política seria todo o resto, inclusive, para mencionar um elemento emblemático, tecer alianças além da esquerda por ocasião da ultrapassagem do regime autoritário.

Foram ações “clássicas” desse núcleo petista a expulsão dos representantes que se dispuseram a votar no colégio eleitoral em Tancredo Neves, um democrata com relevantes serviços prestados à República, ou o voto contrário ao texto constitucional, vazado – aquele voto – em termos estridentemente sindicais. Como resultado, pequena e grande política se embaralharam: ao contrário do que supunha o petismo, o grande movimento era participar da refundação do País, aderindo sem restos à letra e ao espírito da Constituição; o pequeno lance, em vez disso, consistia em conferir aparência de radicalidade à fragmentação corporativa que assolava a sociedade brasileira, mal saída de selvagem modernização capitalista em regime de exceção.

Discutível, nesse sentido, a contribuição pedagógica do PT para o conjunto da sociedade: valeria mais a expressão de um radicalismo despolitizado do que a construção de uma razão política atenta tanto aos movimentos sociais quanto às exigências da redemocratização. De pouca serventia, ainda, a presença no petismo original de conspícuos elementos do catolicismo de esquerda ou de difusas ideologias de extrema esquerda, “cubanas” e terceiro-mundistas, que logo se amalgamaram ao núcleo sindicalista. Podem ter-lhe dado penetração em comunidades religiosas ou expertise na montagem do aparelho burocrático, sem, contudo, contribuir para um pensamento e uma prática que “educassem” para a democracia.

Sobre o catolicismo de esquerda, uma palavra. Estamos muito longe de qualquer visão redutiva ou “ateia” do laicismo republicano, ignorando as relações entre religião e razão ou cancelando os valores religiosos na esfera pública. Aliás, impossível ignorá-los: e se fosse possível, seria indesejável. No entanto, está claro que na fisionomia do petismo, como tem lembrado José de Souza Martins, o dualismo religioso, sem nenhum filtro, terminou por gerar uma compreensão dicotômica da luta política entre o bem (a esquerda e o PT) e o mal (a direita e os “neoliberais”). Ainda em 2014, para dar um exemplo, ouviu-se em importante área religiosa a caracterização do adversário como “inimigo do povo” – categoria infame, matriz de intolerância e de todo tipo de autoritarismo.

Quanto às diferentes manifestações de extrema esquerda, é bom que existam livremente, como, de resto, suas congêneres simétricas e antagônicas, respeitados os comandos constitucionais. Ruim é quando encontram um caldo de cultura favorável à expansão da mentalidade apparatchik e minúsculos “valores” a esta associados, como a subestimação da “democracia burguesa” e o ataque reiterado a seus pilares, como, entre outros, uma Justiça e uma imprensa não partidariamente controladas e uma oposição perfeitamente legitimada para assumir o poder a cada rodada eleitoral, em qualquer das instâncias da União.

Neste fim de ciclo do petismo no poder, convém, pois, considerá-lo mais como figura de uma crise geral do que como expressão de novidade histórica, que, a partir da esquerda, contribua para atualizar e ampliar as instituições. Os ingredientes que o constituíram não terão sido os melhores, ou não foram reagrupados segundo sábia e prudente razão política, mas não era inevitável que a “receita” desandasse a tal ponto.

Não é a primeira vez nem será a última que uma força de esquerda falha – um sinal adicional de que, na sociedade dos homens, não pode haver quem detenha o monopólio da virtude e possa subtrair-se ao jogo democrático.

LUIZ SÉRGIO HENRIQUES É TRADUTOR E ENSAÍSTA. É UM DOS ORGANIZADORES DAS ‘OBRAS’ DE GRAMSCI NO BRASIL SITE: WWW.GRAMSCI.ORG

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