Crise boa para os bancos

Não esperem a cooperação dos banqueiros para o Brasil enfrentar a recessão global e conter o desemprego. Não há como chegar a outra conclusão depois de ler a entrevista do presidente da Febraban, Fabio Barbosa, publicada ontem no Estado. Ele não o disse com essas palavras, mas o que disse significa que, para ele, se o setor financeiro ganha enquanto o resto da economia enfrenta dificuldades, para que mudar de política? O País foi atingido pelos primeiros impactos da crise no terceiro trimestre de 2008. Desde então o crédito ficou mais caro, porque os bancos ampliaram o spread, isto é, a diferença entre seu custo de captação do dinheiro e o preço cobrado na concessão dos empréstimos. "O spread no Brasil é o mais elevado do mundo e não tenho como dizer que não é. O spread subiu e não tenho como dizer que não subiu", disse o presidente da Febraban. Mas, depois de reconhecer esses fatos incontestáveis, ele negou qualquer antagonismo entre os interesses do setor financeiro e os da indústria e do comércio. "Nossos interesses", afirmou, "são convergentes."O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, parece não ter notado essa convergência. Se notasse, talvez não tivesse proposto a prisão de banqueiros. "Se isso acontecesse há 40 anos, dava cadeia, por agiotagem." Ele pode ter exagerado na recomendação, mas não ao mencionar as enormes taxas cobradas pelos bancos, com spreads superiores até a 40% em operações de capital de giro. Também não exagerou ao mostrar a distância entre os maiores e os menores spreads. Se alguns podem lucrar com 12,7% ao ano, por que outros têm de trabalhar com margens tão maiores, especialmente quando se prevê uma inflação na altura de 4,5%? perguntou Skaf. Confrontado com a questão do spread, o presidente da Febraban respondeu segundo os padrões habituais: o assunto é muito complexo, há muito imposto, muita inadimplência, muito depósito compulsório e muito crédito dirigido. "A busca de soluções fáceis não vai nos levar a lugar nenhum", assegurou. Mas a resposta-padrão há muito deixou de ser convincente. Convence ainda menos, depois de o Banco Central (BC) ter liberado R$ 99,8 bilhões dos depósitos compulsórios desde o fim de setembro. O crédito concedido pelo sistema bancário, segundo o presidente do BC, Henrique Meirelles, voltou ao nível imediatamente anterior à crise. A relação entre oferta e procura não é a mesma, porque grandes empresas, como lembrou o presidente da Febraban, passaram a procurar crédito no mercado interno. Esse dado é relevante, mas será suficiente para justificar o aumento do spread - especialmente num país onde a margem dos juros já era tão ampla? Nenhum dos argumentos apresentados pelos banqueiros para justificar os spreads é convincente. Segundo análise feita por especialistas, impostos, taxas e depósito compulsório correspondem a pouco menos de um quarto do spread. Inadimplência e custo administrativo equivalem a cerca de metade do total. Sobra um ganho líquido superior a um quarto. Esses cálculos são imprecisos, porque as informações dos bancos são pouco claras. De toda forma, o ganho embutido no spread é considerável, como têm mostrado os balanços. Recentemente o BC passou a divulgar os spreads pela internet. Os bancos líderes de cada segmento geralmente cobram as maiores taxas. É um forte indício de como o poder de mercado permite a alguns bancos impor altos custos aos clientes. Na Câmara dos Deputados, líderes partidários decidiram dar prioridade à tramitação do projeto do cadastro positivo. Segundo os banqueiros, esse instrumento permitirá selecionar os bons pagadores e cobrar juros menores nos empréstimos concedidos a esse grupo. Se a promessa valer, a maior parte dos financiamentos terá de ficar mais barata. Falta ver se, aprovada a lei, não surgirá outra alegação em defesa dos juros extorsivos. "A única coisa que eu não aceito", disse Fabio Barbosa, "é que eu ou o sistema financeiro sejamos (acusados de) sacanas." Ele mesmo escolheu o termo. Os críticos dos spreads têm usado outras palavras. Paulo Skaf, por exemplo, falou em agiotagem.

, O Estadao de S.Paulo

18 de fevereiro de 2009 | 00h00

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