Crise no comércio exterior

Estudo recente do Departamento de Competitividade e Inovação da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra impressionante fotografia da atual situação de um importante setor produtivo. O trabalho faz uma avaliação do desempenho no exterior da indústria de transformação, com base na intensidade tecnológica e na de uso dos fatores de produção. Como se comportou a pauta exportadora e importadora da indústria de transformação?

Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

24 Março 2015 | 02h05

A balança comercial brasileira apresentou déficit de US$ 3,96 bilhões em 2014, o pior resultado desde o ano de 1998. A indústria de transformação foi a grande responsável por tal resultado, com déficit comercial de US$ 58,86 bilhões, o maior já registrado pelo setor. Os demais setores - agricultura, indústria extrativa e outros - apresentaram superávit de US$ 54,90 bilhões.

Desde 2007 o saldo comercial vem apresentando tendência de queda, puxada pelo mau comportamento do setor industrial em consequência da perda de competitividade da economia. Os problemas enfrentados pela indústria de transformação, como o elevado custo Brasil e a taxa de câmbio sobrevalorizada, agravados a partir de 2008, refletiram-se no resultado comercial do setor, que se tornou deficitário, situação agravada com o passar do tempo.

O trabalho da Fiesp mostra uma rápida reprimarização da pauta das exportações brasileiras no período de 2006 a 2014: houve perda de participação da indústria de transformação e aumento da participação da agricultura e da indústria extrativa na pauta exportadora.

Em 2014, a participação das exportações da indústria de transformação representou 61,6% das exportações totais, em contraposição aos 78,2% registrados em 2006. Por outro lado, verificou-se um avanço dos setores intensivos em recursos naturais e de baixa tecnologia, que passaram a representar 38,4% da pauta exportadora em 2014, um avanço de 9 pontos porcentuais em relação a 2006. Os setores intensivos em recursos naturais e de baixa tecnologia foram responsáveis por 69,7% do aumento das exportações da indústria no período 2014-2007. Os demais setores viram suas exportações se manter praticamente estagnadas nesse período. As atividades que concentraram as exportações, em 2014, dos setores intensivos em recursos naturais e de baixa tecnologia foram: abate e produtos de carne, 31,6%; refino de açúcar, 17,7%; óleos e gorduras vegetais e animais, 15,7%. A reprimarização da pauta exportadora torna o País dependente dos preços das commodities fixados em bolsas no exterior e mais vulnerável a choques negativos externos.

Por outro lado, as importações da indústria de transformação aumentaram cerca de quatro vezes mais do que as exportações no período de 2014-2007. Concentradas principalmente nos setores intensivos em escala e de média e alta tecnologia, apresentaram um déficit de US$ 44,1 bilhões em 2014, em contraste com o resultado positivo em 2006, de US$ 0,9 bilhão. As atividades que concentraram as importações dessa categoria em 2014 foram: automóveis, caminhonetas e utilitários, 16,0%; produtos químicos inorgânicos, 15,4%; peças e acessórios para veículos automotores, 14,4%; produtos químicos orgânicos, 13,3%. Esse resultado indica uma substituição no consumo interno de produtos nacionais por importados, devida aos altos custos que impedem a indústria nacional de competir com concorrentes externos.

A indústria nacional, que em meados da década de 1980 representou cerca de 25% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, representa hoje apenas 13%. Com a recente revisão do PIB nacional, a indústria caiu ainda mais, estando ao redor de 11% e com viés de queda.

De um superávit na balança comercial nesse setor em 2006, passamos a um déficit em 2014. No setor industrial como um todo, o déficit subiu a cerca de US$110 bilhões.

A falta de um projeto nacional e a ausência de uma estratégia viável de comércio exterior tornam difícil uma reversão em curto prazo da tendência de queda da participação da indústria na formação da riqueza nacional e apontam para a primarização de nossa pauta de exportação.

As medidas recentes e necessárias visando a um forte ajuste para corrigir as distorções econômicas e as políticas equivocadas seguidas nos últimos 12 anos dificultam a reação por parte do setor privado.

A indústria de transformação em São Paulo desempregou, em 2014, mais de 125 mil trabalhadores. A continuação da tendência de perda de mercado interno e externo pelo setor fará aumentar significativamente o desemprego, que, por sua vez, determinará a redução do mercado consumidor nacional.

O anunciado Plano Nacional de Exportação pouco efeito terá se a questão da perda sistêmica da competitividade não for atacada de frente por meio das mudanças que se fazem necessárias para reduzir o custo Brasil.

As perspectivas do comércio exterior brasileiro para 2015 apontam para uma drástica redução das importações e exportações, tanto no preço como no volume exportado. A Funcex projeta US$ 208,8 bilhões de exportações, com queda de 7,2% em relação a 2014, e US$ 206,6 bilhões de importações, queda de 9,8%. Isso significará uma queda de 8,5% na corrente de comércio do Brasil, que recuaria pelo segundo ano consecutivo. Com a queda dos termos de troca, o intercâmbio comercial se reduziria para US$ 415,4 bilhões, ante US$ 481,8 bilhões em 2013. A participação do Brasil no comércio internacional recuaria para perto de 1%.

Mesmo com o câmbio mais competitivo, sem uma política clara para melhorar a competitividade e de atração de tecnologia e inovação não será possível reverter essa lamentável situação e reindustrializar a pauta de exportações do Brasil.

*Rubens Barbosa é presidente do conselho de Comércio Exterior da Fiesp 

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