Cristina censura as consultorias

O governo argentino deu mais um passo para desmoralizar suas informações econômicas e para comprometer um pouco mais a já escassa credibilidade de alguns de seus principais ministros. Em vez de combater seriamente a inflação, as autoridades argentinas decidiram atacar as consultorias independentes por divulgarem números diferentes dos oficiais. Além de grotesco, o episódio é preocupante, por ser mais uma iniciativa autoritária de um grupo conhecido, há anos, por suas manifestações de repulsa à liberdade de informação e de opinião.

, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

Há muito tempo ninguém mais acredita nas informações oficiais sobre a inflação argentina. O serviço de estatística foi ajustado, já no governo do presidente Néstor Kirchner, para só divulgar os índices aprovados pelo Executivo. Sua mulher e sucessora, Cristina, manteve a distorção. As estimativas das consultorias privadas tornaram-se indispensáveis para quem deseja algum realismo na avaliação do aumento geral de preços. Mas o Executivo decidiu eliminar também essa fonte de informação.

Há cerca de um mês o famigerado secretário do Comércio Interior, Guillermo Moreno, começou a pressionar abertamente as instituições particulares, exigindo explicações sobre sua metodologia, acusando-as de fornecer ao público informações equivocadas e, finalmente, multando-as por infração à Lei de Lealdade Comercial. No fim do mês passado, a consultoria Orlando Ferreres e Associados, do ex-vice-ministro da Economia Orlando Ferreres, foi multada em 500 mil pesos (cerca de US$ 125 mil) e foi intimada a apresentar explicações.

Multa igual foi aplicada a pelo menos outros dois escritórios especializados em análise de conjuntura. Um deles, Economia & Regiones, do conhecido economista Rogélio Frigério, decidiu suspender a divulgação de seus índices. Continuará a usá-los somente para os próprios estudos, enquanto não for superado o conflito com o governo. Economia & Regiones publicou, no entanto, mais um índice como despedida - pelo menos temporária. Por ele, o custo da cesta básica subiu 3,1% em fevereiro. Para o governo a variação ficou em 0,02%, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos.

O governo já investiu contra 12 consultorias. O crime dos economistas independentes é tentar avaliar com algum realismo, pelos próprios meios, o quadro econômico. Segundo o governo argentino, os preços ao consumidor subiram 10,9% em 2010. Os números calculados pelos consultores do mercado ficaram entre 22% e 27%, aproximadamente. As divergências vêm de mais longe. Entre janeiro de 2007 e dezembro do ano passado, a inflação acumulada chegou a cerca de 120%, segundo a Ecolatina. De acordo com o Indec, ficou em apenas 39% - cerca de 80 pontos abaixo da variação estimada pelos especialistas do mercado.

Ao subestimar a inflação, o governo subestima também o chamado deflator implícito, usado para o cálculo do crescimento real da economia. Um deflator subestimado resulta numa expansão superestimada do Produto Interno Bruto (PIB), comentou Jorge Todesca, dono da Finsoport, também multada em valor correspondente a US$ 125 mil. De acordo com a consultoria, o PIB argentino deve ter crescido cerca de 7% no ano passado. A estimativa do governo aponta 9,1%.

Mas a veracidade dos números é apenas um aspecto do problema. A grande questão política é a tentativa do governo de impedir a divulgação de informações produzidas por entidades privadas. Ninguém é obrigado a acreditar nas consultorias. As pessoas simplesmente preferem esses números porque o governo perdeu a credibilidade.

Durante anos, o FMI divulgou com ressalva as estimativas de inflação fornecidas pelo governo argentino. A ressalva quanto à credibilidade dos números tem aparecido em nota, no pé da tabela de indicadores econômicos latino-americanos publicada, periodicamente, no Panorama Econômico Mundial. Dificilmente uma instituição multilateral se permitiria essa atitude, se não estivesse refletindo uma opinião praticamente consensual.

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