Cristina corta subsídios

A desconfiança dos mercados e, especialmente, a fuga de capitais forçam o governo argentino a atenuar pelo menos por algum tempo sua política populista e a cortar subsídios ao consumo de água, eletricidade e gás. A medida, anunciada na semana passada, deverá resultar numa economia de 3,97 bilhões de pesos (US$ 925 milhões) para o Tesouro, segundo estimativa oficial. "Este é um claro sinal aos mercados", disse o ministro do Planejamento, Julio de Vido, deixando claro o objetivo do governo. Trata-se de um recado a investidores e poupadores, nacionais e estrangeiros, visivelmente nervosos diante da condução da política econômica. Passada a eleição e garantido mais um mandato para a presidente Cristina Kirchner, o governo pode arriscar-se a incomodar alguns empresários há muito beneficiados pelos favores oficiais e uma parcela dos consumidores mais abonados.

O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2011 | 03h06

Entre o começo de agosto e o fim de outubro as reservas cambiais diminuíram de US$ 52 bilhões para US$ 46,8 bilhões. Nesse período, o Banco Central interveio no mercado para conter a corrida aos dólares e o forte movimento de saída de capitais. No fim do mês passado, o Ministério da Economia apertou os controles sobre as operações cambiais, obrigando os compradores de moeda estrangeira a pedir autorização à Receita. O novo aperto foi anunciado cerca de uma semana depois da reeleição da presidente, no primeiro turno, com 54% dos votos. O apoio da maioria dos cidadãos ao governo não se havia traduzido em maior confiança na moeda. Mesmo depois da implantação dos controles, a saída de capitais continuou. Especialistas estimam entre US$ 21 bilhões e US$ 25 bilhões a fuga de capitais da Argentina em 2011.

Manter dinheiro no exterior é uma tradição de empresas e poupadores argentinos. Em momentos de crise ou de desconfiança em relação à política econômica aumenta a remessa de dinheiro e se torna perigosa para a economia nacional.

Desta vez a inquietação é explicável pela combinação de vários fatores - crescimento econômico mais lento, contas externas menos confortáveis, inflação ainda muito alta (embora disfarçada nas estatísticas oficiais) e uma situação fiscal preocupante. Entidades privadas ainda estimam para este ano uma expansão econômica em torno de 6,5%. Para 2012, cerca de 4,5%. Dado o cenário internacional, são números muito bons, mas bem menores que os dos anos anteriores (9,2% em 2010).

O cenário mais inquietante é o da inflação. Segundo o governo, os preços ao consumidor aumentaram 9,7% nos últimos 12 meses. Economistas do setor privado estimam um aumento na faixa de 22% a 25%. Os dados oficiais vêm sendo maquiados há vários anos. Esse fato, bem conhecido dentro e fora do país, é um dos motivos de desconfiança dos mercados em relação à política econômica. Além disso, a formação de preços há muitos anos vem sendo afetada por um complicado sistema de controles, de intervenções no sistema de abastecimento e de subvenções. O corte de subsídios, por enquanto limitado a algumas áreas da capital, deverá resultar em aumentos entre 150% e 400% nas contas de água, eletricidade e gás, segundo estimativas divulgadas pelo jornal Clarín. Consumidores sem condições de suportar o aumento poderão ser poupados, segundo o anúncio oficial, mas, para isso, terão de pedir a isenção e de provar sua incapacidade.

As medidas atingirão indústrias de processamento de gás, de produção de biocombustíveis e de agroquímicos e de refino de petróleo. Representantes do setor empresarial puseram em dúvida a economia de 3,97 bilhões de pesos, porque nenhuma fonte oficial explicou direito como se chegou a esse número.

Por enquanto, o importante para o governo é certamente enviar aos mercados a mensagem de austeridade. Os mercados talvez cobrem mais, porque o sistema de subsídios é amplo e muito custoso. O governo terá problemas, também, com o impacto da nova política nos índices de inflação. Poderá insistir na maquiagem, mas terá de reconhecer oficialmente algum impacto no custo de vida.

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