Cristina, sim; peso, não

Vote no governo, mas não confie na moeda. Os argentinos, fiéis a esse lema, reelegeram a presidente Cristina Kirchner com 54% dos votos, em primeiro turno, mas continuaram mandando dólares para o exterior. Também fiel a velhos costumes, o governo voltou a intervir no mercado de câmbio, para dificultar a compra de moeda estrangeira e conter a sangria de reservas. A partir dessa segunda-feira, o comprador - empresa ou pessoa física - tem de explicar de onde saiu o dinheiro para a transação e o destino da moeda comprada. A operação só será completada com autorização do Fisco, isto é, da Administração Federal de Rendas Públicas. Como de costume, a intervenção deverá servir principalmente para complicar a vida de quem precisa de moeda estrangeira. Servirá também, naturalmente, para estimular os negócios no mercado paralelo e para reforçar a desconfiança em relação à solidez do peso.

O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2011 | 03h04

Oficialmente, não haverá novas limitações à compra de moeda estrangeira. O governo só pretende, segundo seus porta-vozes, tornar as operações mais transparentes e combater a lavagem de dinheiro. Mas ninguém, dentro ou fora do governo, deve levar a sério essa conversa.

Desde o começo do ano, os argentinos mandaram para fora do país uma soma estimada em US$ 21,8 bilhões. Isso é bem mais que o dobro do superávit comercial acumulado de janeiro a setembro (US$ 8,2 bilhões). O superávit comercial de todo o ano passado chegou a US$ 11,6 bilhões, pouco mais de metade do valor remetido neste ano até agora.

A principal motivação para a evasão, apontada por analistas, é muito simples: os argentinos não acreditam nos números oficiais da inflação e apostam numa próxima desvalorização cambial. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), os preços ao consumidor subiram neste ano 7,3% até setembro e acumularam uma alta de 9,9% em 12 meses. Escritórios privados estimam uma inflação anual próxima de 25%. O dólar oficial, cotado ontem a 4,26 pesos, poderá chegar até o fim do ano a 5 pesos ou muito perto desse valor, segundo se especula no mercado. O Banco Central (BC) poderá intervir para conter a desvalorização da moeda argentina, porque isso realimentará a inflação. Mas, ao mesmo tempo, o governo terá de pensar no comércio exterior. A valorização do dólar ajudará a elevar as exportações e a conter as importações.

Na maior parte do tempo o BC tem procurado manter o peso depreciado. Mas essa política foi abandonada, pelo menos provisoriamente, no esforço para conter o envio de dólares ao exterior. Em setembro, a autoridade monetária vendeu no mercado US$ 1,5 bilhão, para enfrentar a onda compradora. Em outubro, o valor vendido aumentou para US$ 1,78 bilhão. No ano passado, a saída de moeda estrangeira (US$ 11,4 bilhões) praticamente igualou o superávit comercial. Neste ano o volume de remessas cresceu aceleradamente e já está muito próximo do recorde anterior, de 2008, quando a saída chegou a US$ 23,1 bilhões.

Segundo estimativas correntes no mercado financeiro, os argentinos mantêm fora do país cerca de US$ 160 bilhões. Só em setembro e outubro mais US$ 7 bilhões, aproximadamente, devem ter sido mandados para o exterior, segundo cálculos de especialistas privados.

Os argentinos, segundo o presidente Néstor Kirchner, continuavam pensando em dólares, muito tempo depois de encerrada oficialmente a desastrosa experiência da paridade entre a moeda argentina e a americana. Mesmo naquele período, os argentinos jamais haviam levado muito a sério a equivalência das duas moedas. A prova disso é muito clara: credores preferiam quase sempre contratos em dólares. Isso valia para negócios tão diferentes quanto aluguéis e compras a prazo. O governo quebrou e teve de impor um calote a credores nacionais e estrangeiros porque sua dívida era quase toda em moeda americana.

O cidadão argentino pode encontrar motivos para manter no governo o nome Kirchner, mas sua confiança tem limites muito claros. Como acreditar na moeda, se o governo é um conhecido manipulador de estatísticas e prefere a mágica dos controles à solução técnica e efetiva dos grandes problemas?

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