Cuba muda de chefe, mas não de governo

Com Miguel Díaz-Canel o povo continuará na pobreza e sem a menor esperança de liberdade

*ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 03h00

Para quem ama a liberdade e o Estado de Direito torna-se profundamente desanimador verificar que a população cubana continuará condenada a viver num país pobre, constituído por famílias pobres. Sem eleições livres que permitissem a escolha do supremo mandatário da ilha, viu-se chegar ao poder alguém que não difunde a menor esperança de liberdades e declara, sem corar, que terão continuidade a estatização e o comunismo.

O novo presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, ao assumir o cargo deixou claro que haverá pouco espaço para o capitalismo, ou seja, a população cubana está mesmo condenada a viver com o salário de uns poucos dólares mensais. Ele demonstrou ter espinha mole, ou seja, anunciou curvar-se ao poderio ditatorial dos Castros, a ponto de declarar que Raúl continuará à frente do Partido Comunista Cubano (isso equivale a dizer que o novo presidente não mandará nada).

Essa situação é realmente infeliz para o povo cubano, sobretudo porque os dirigentes do Partido Comunista da ilha não têm a mesma inteligência dos comandantes do Partido Comunista Chinês. O comunismo nunca deu certo em lugar nenhum do mundo, nem mesmo na Alemanha Oriental, povoada por pessoas disciplinadas e com bom nível cultural.

Somente na China, a partir da opção de economia capitalista de mercado, houve expansão econômica e geração de riqueza. Antes da chegada ao poder de Deng Xiaoping, a China era economicamente travada, como Cuba, mas, com sabedoria e inteligência esse líder passou a pagar um pouco mais a quem produzisse um pouco mais.

Incrível, isso era a descoberta do lucro, mola propulsora do capitalismo, algo que a falta de sensibilidade russa jamais conseguiu entender durante o longo período de comunismo. Como resultado do uso da inteligência, a China tornou-se uma potência econômica, dirigida, paradoxalmente, por um partido comunista.

Em Cuba, o mais grave é que a ideologia, imposta de cima para baixo, sempre conduziu à lavagem cerebral das crianças, fazendo-as ser dirigidas desde a escola primária a endeusar Fidel Castro e seu irmão Raúl.

Pensar livremente talvez seja mesmo perigoso nesse país, assim como era na extinta União Soviética, e por isso a quantidade de detenções arbitrárias, por divergências do regime, continua a ser um problema dos mais graves, que afugenta os países amantes da liberdade e do Estado de Direito. Informações do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas dão conta de que as detenções arbitrárias subiram de 172 para 827 ao mês entre 2010 e 2016.

Além disso, os números alegados de pessoas executadas por oposição ao castrismo são altos, mas, lamentavelmente, nunca podem ser confirmados porque a falta de liberdade na ilha não permite o acesso a tais estatísticas. Sem nenhuma dúvida, por não se submeter ao respeito aos direitos humanos, Cuba continua a enfrentar o distanciamento da maior parte das nações desenvolvidas.

Os aliados mais próximos dos cubanos nos dias atuais são a Venezuela, fornecedora de petróleo ao regime castrista, e a Rússia, que também caminha para uma espécie de isolamento da comunidade internacional, por sua notória devoção ao governo sírio. Esses apoios são frágeis demais para impulsionarem Cuba e fazê-la merecer estímulos econômicos.

Nem os esforços de Barack Obama, quando presidente dos EUA, influíram na posição repressora do governo da ilha contra quem comete o “pecado” de pensar de forma diferente dos Castros. Somente isso permite que a experiência revolucionária de tantos anos ainda se mantenha, à custa de medo e ameaças, como se fosse um chicote político a atingir opositores.

O curioso é que Fidel Castro, quando ganhou a atenção do mundo ao enfrentar de armas na mão o regime corrupto de Fulgencio Batista, não tinha o propósito de implantar um regime comunista. Realmente, o seu talento estava na capacidade de dirigir uma revolução, mas não de articular uma ideologia revolucionária bem definida. 

Homem pragmático, não se deu ao luxo de idealizar um programa ideológico que se ajustasse às condições mutáveis de Cuba ou o apego ao comunismo, por exemplo. A Revolução Russa estabelecera o comunismo na Europa, a Revolução Chinesa fizera o mesmo na Ásia e por isso pareceu que a Revolução Cubana, com sua guerra de guerrilha, teria como doutrina revolucionária o comunismo. De início não foi assim.

Sob a influência de Fidel, Guevara e Debray, entendeu-se inicialmente que as pretendidas revoluções na América Latina não poderiam seguir o padrão estabelecido quer pela revolução bolchevista, quer pela chinesa. Mas no dia a dia os líderes cubanos adotaram com leves mudanças os conceitos revolucionários nascidos naqueles países para ajustá-los às condições da ilha.

Fidel inicialmente não admitiu estar sob a influência de Marx, Lenin ou Mao. Mas em meados da década de 1960, num congresso da juventude em Havana, o ministro das Indústrias, Che Guevara, questionou: “Qual é a nossa ideologia?”. E respondeu: “Eu a definiria como marxista. Nossa revolução descobriu por seus métodos os caminhos que Marx apontou”.

Logo após, Fidel concluiu que os objetivos da revolução não seriam atingidos a menos que a economia cubana fosse socializada. E em outubro de 1960 nacionalizou a maioria das empresas cubanas e norte-americanas. E fez a significativa afirmação: “Nós próprios não sabemos como chamar o que estamos construindo e não nos importamos com isso. É, naturalmente, alguma espécie de socialismo”. E era mesmo – um socialismo que manteve o povo cubano na mesma penúria dos tempos de Batista. Para não haver dúvidas de suas intenções, em 2 de dezembro de 1961, em famoso discurso, Fidel afirmou: “Eu sou um marxista-leninista”.

*DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DA JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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