Cuidado com o vão

Sem as reformas aumentará a distância que nos separa de países mais avançados

FÁBIO DE BIAZZI*, O Estado de S.Paulo

31 Março 2017 | 03h00

Quem já se aventurou pelo metrô de Londres certamente ouviu o aviso “mind the gap” que se repete quando uma composição para – particularmente em estações onde a plataforma de embarque é curva. Como quase todos sabem, o aviso remete ao vão entre a porta dos vagões e a plataforma, maior que o usual, que pode levar a acidentes se a recomendação não for levada devidamente a sério.

Inspirado por esse alerta, o sueco Hans Rosling escolheu o nome da Gapminder Foundation, que ele criou com seus dois filhos, em 2005. A Gapminder tem como principal objetivo ajudar na análise e compreensão de dados estatísticos dos mais diversos países e contribuir para o alcance das metas de desenvolvimento do milênio da ONU. Dentre os principais patrocinadores da Gapminder estão a Ikea Foundation e a Bill & Melinda Gates Foundation.

Para tornar viável essa missão os Roslings desenvolveram um software chamado Trendalyser, capaz de trabalhar dados de mais de 200 países. O Trendalyser permite a visualização gráfica dos dados e da evolução dos países ao longo do tempo. A ferramenta é interativa e podemos criar os gráficos de nosso interesse no site www.gapminder.org. O software mostrou-se tão impressionante que foi adquirido pelo Google, em 2007.

E por que falar de Hans Rosling neste momento? Primeiro, porque por um desses infortúnios que levam embora precocemente alguns muito bons e deixam imbecis perniciosos muito mais longevos sobre a face da Terra, ele faleceu algumas semanas atrás, aos 68 anos. Parece ser um momento adequado para ajudar a divulgar seu valioso e interessante legado. Inconformado com a ignorância sobre os fatos concretos relativos aos mais diferentes países, Rosling dizia que “a primeira coisa necessária para se pensar o futuro é conhecer o presente”. Um segundo motivo para o resgate de seu trabalho nesta hora é que essas estatísticas podem auxiliar-nos na reflexão sobre o que tem sido a evolução do Brasil nas últimas décadas e como ela pode desenrolar-se – ou não – nas próximas.

Alguns ótimos insights, não suficientemente difundidos, se nos apresentam quando observamos alguns dos gráficos que o Trendalyser nos permite criar, tais como: 1) O desenvolvimento geral da expectativa de vida e do GDP per capita tem sido enorme, principalmente ao longo das últimas cinco décadas; 2) não há mais um fosso entre países ricos e pobres, mas uma distribuição contínua de riqueza; 3) não se podem comparar os países pelas médias sem grandes ressalvas, pois diferenças regionais internas podem ser maiores que as diferenças entre nações; 4) todos os países evoluem significativamente, mas a velocidade de avanço tem sido muito diferente entre eles.

São inúmeras as análises que podem ser feitas no Trendalyser. Seguem alguns exemplos: 1) A Argentina, por volta de 1910 e novamente no início dos anos 30, tinha GDP per capita – ajustado pela inflação e paridade de preços – equivalente ao dos Estados Unidos e do Reino Unido. Hoje a renda média dos argentinos é metade da dos britânicos e um terço da renda dos americanos; 2) a província de Shanghai, na China, tem GPD per capita igual ao da Itália; 3) vários países apresentam expectativa de vida e GDP per capita muito similares aos do Brasil: Irã, Tailândia, Venezuela, Bulgária, Argentina, México, China, Líbia, Azerbaijão e Argélia; 4) a Rússia tem hoje praticamente a mesma expectativa de vida e GDP per capita que os Estados Unidos tinham há 50 anos (1967); 5) quase todos os países da Europa Ocidental apresentam índice de mortes violentas por 100 mil habitantes/ano menor que 1; Reino Unido e Japão, 0,4; China, 1,7; Índia e Estados Unidos, 6; Rússia, 22; Brasil, 24; e África do Sul, 70. Esses exemplos mostram que as possibilidades de análises e insights da Gapminder para legisladores, Poder Executivo, acadêmicos e influenciadores são estupendos.

Para nós, brasileiros, essas regras e esses dados se contextualizam em particular da seguinte forma: o Brasil tem evoluído muito em seus indicadores, mas sabemos que tem evoluído de maneira não uniforme. Além disso, nosso país progride como tantos outros, mas muito longe da velocidade dos com maior evolução. Um exemplo de observação que pode ser feita sem dificuldade no site da Gapminder: ao construir as curvas de evolução do GDP per capita de Brasil, Japão e Coreia do Sul, podemos notar que em 1960 o Brasil tinha o mesmo índice que o Japão e quatro vezes a renda per capita da Coreia do Sul. Os coreanos ultrapassaram os brasileiros em 1989 e hoje têm um GDP per capita praticamente igual ao dos japoneses, valendo mais que o dobro da renda dos brasileiros. Tudo isso num intervalo de menos de 60 anos. Esses números não são de modo algum novidade, mas nos ajudam a evidenciar o óbvio que muitos no Brasil insistem em ignorar: as decisões e ações políticas, econômicas e sociais tomadas ao longo dos anos moldam as trajetórias dos países e determinam seu futuro.

Os desastres econômicos, políticos e éticos dos últimos 12 anos certamente não nos ajudaram a avançar. Agora temos na pauta, mais uma vez, as reformas previdenciária, trabalhista, política e fiscal, bastante discutidas e com sugestões valiosas apontadas, por exemplo, em editoriais e artigos publicados recentemente no Estadão. Entretanto, sabemos que as chances de essas reformas serem feitas adequadamente e causarem o impacto necessário são diminutas, dados o fisiologismo e a falta de altruísmo que imperam nos diferentes Poderes da República, onde muitos estão muito mais preocupados em escapulir do alcance da Lava Jato do que em pensar o futuro do País.

E se essas reformas, mais uma vez, não forem devidamente encaminhadas, o vão que nos separa dos países mais avançados e civilizados por certo vai novamente aumentar. Mind the gap...

* FÁBIO DE BIAZZI É ENGENHEIRO DE PRODUÇÃO, DOUTOR EM ENGENHARIA PELA USP, DIRETOR EXECUTIVO E CONSULTOR DE GESTÃO, PROFESSOR DE LIDERANÇA E COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL DO MBA EXECUTIVO DO INSPER

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