Cuidar e cultivar a natureza

Depredação não encontra fundamento na narração bíblica da criação

DOM ODILO P. SCHERER*, O Estado de S.Paulo

11 Março 2017 | 03h00

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio da Campanha da Fraternidade, convida mais uma vez a refletir sobre a seriedade da questão ambiental e sobre a responsabilidade de todos no cuidado da natureza. Desta vez, trata do cuidado dos biomas brasileiros na dimensão da fraternidade. A interação do homem com os diversos biomas brasileiros tem relação direta com a defesa da vida e com a ética.

Alguns entendem que a palavra bíblica dirigida por Deus ao homem – “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (cf Gn 1,28) – tenha sido uma autorização dada pelo Criador ao homem para que este avance sobre a natureza com sofreguidão e se aposse de suas riquezas...

No entanto, essa interpretação da bênção divina originária dada ao homem não é boa. O mundo foi, de fato, entregue aos cuidados do homem, mas para que este seja um aliado de Deus no cuidado e na administração da natureza. A imagem do jardim, no qual Deus colocou o homem, expressa bem essa ideia: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e guardar” (cf Gn 2,8.15). Portanto, a depredação da natureza não encontra seu fundamento na narração bíblica da criação.

A reflexão sistemática do cristianismo sobre a temática ecológica é bastante recente, como também no âmbito geral da cultura, e se deve, sobretudo, aos papas mais recentes. O primeiro que expressou a preocupação ambiental num documento pontifício foi Paulo VI (1963-1978). Na encíclica Octogesima Adveniens (OA), de 1971, ele adverte: “Por causa da exploração irrefletida da natureza, o homem corre o risco de destruí-la e de se tornar, ele próprio, vítima dessa degradação” (OA 21). Paulo VI apontou consequências da degradação ambiental para o conjunto das condições de vida: poluição do ar e das águas, novas doenças e destruição do ambiente social. Com sua intervenção imprudente na natureza, o homem pode desencadear fatores que ele mesmo, depois, não consegue mais controlar e governar.

Não é bem isso que já vivemos com o aquecimento global e os problemas humanitários emergentes, menos de 50 anos depois dessa encíclica?

Para o mesmo pontífice, já não se trata de uma questão localizada, que interessa apenas a alguma cidade ou um país em particular, mas de um problema de toda a família humana. Por isso pede que os cristãos somem esforços com todas as demais pessoas, assumindo suas responsabilidades nessa causa comum a todos (OA 21).

São João Paulo II (1978-2005) tratou da questão em muitas ocasiões e em diversos documentos de seu magistério, desenvolvendo um pensamento ético sobre a questão ecológica. O homem é parte da natureza e precisa reconhecer as relações existentes entre todos os seres do mundo, não apenas por respeito às leis biológicas ou físicas, mas também por critérios e normas morais.

Na mensagem para o dia 1.° de janeiro de 1990, o papa tratou da paz do homem com Deus e com as demais criaturas, da degradação ambiental grave – “talvez irreversível” – em diversas partes do mundo, do aquecimento global e dos efeitos das mudanças climáticas, antes mesmo que esses conceitos fossem amplamente divulgados. “Indivíduos, Estados e organismos internacionais devem assumir as suas responsabilidades: trata-se de um dever da inteira família humana”. Falou ainda que o direito a um ambiente seguro deveria ser introduzido na Carta dos Direitos Humanos, que uma nova solidariedade nas relações entre os países desenvolvidos e em via de desenvolvimento é uma urgência moral.

A reflexão mais contundente desse papa sobre a moral ecológica se encontra na sua encíclica social Centesimus Annus, de 1991: “Na raiz da destruição insensata do ambiente natural há um erro antropológico, infelizmente, muito espalhado em nosso tempo”. A natureza sofre quando o homem se volta para ela com o desejo desordenado de possuí-la, qual senhor absoluto, ignorando que ela tem um significado originário, recebido do Criador. E então, “em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, o homem substitui-se a Deus e acaba por provocar a revolta da natureza, mais tiranizada que governada por ele” (n.º 37).

O papa Bento XVI em diversas ocasiões também manifestou uma percepção aguda das questões ecológicas. Na mensagem para o dia 1.º de janeiro de 2007 ele insistiu na relação inseparável entre ecologia da natureza, humana e social. Na encíclica Caritas in Veritate, de 2009, Bento XVI ampliou a reflexão para os vários aspectos jurídicos, econômicos, políticos e culturais da questão ambiental (n.º 48). E conclamou a uma nova solidariedade para a redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os países desprovidos deles possam ter aceso a eles” (n.º 48-49). E reiterou que a Igreja tem responsabilidades em relação à questão ambiental e deve fazer ouvir a sua voz em âmbito público (n.º 61).

O papa Francisco ampliou ulteriormente a reflexão teológica e ética sobre a temática ambiental, sobretudo na exortação apostólica Evangelii Gaudium, de 2013, e na encíclica Laudato sì – sobre o cuidado da casa comum, de 2015. Ele propõe uma ecologia integral, em que as questões ambientais, as humanas e as sociais caminhem juntas. Questiona a respeito do impacto presente e futuro do progresso econômico, das novas tecnologias e do sistema financeiro sobre os seres humanos e o ambiente. Denuncia a idolatria do dinheiro e das riquezas, que acaba por sacrificar a natureza e o próprio ser humano à sua lógica. Fala da cultura do desperdício e do descarte das pessoas, da urgência de unir esforços na busca de soluções para a grave crise ambiental. E incluiu a temática ecológica entre as questões candentes da doutrina social da Igreja Católica e da moral cristã.

* DOM ODILO P. SCHERER É CARDEAL ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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