Da intenção ao compromisso

Os líderes políticos do G7 – cúpula dos chefes de Estado e de governo de Estados Unidos, Canadá, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália – anunciaram a intenção de banir os combustíveis fósseis de seus países até 2100. Não há dúvida de que o comunicado do G7 a respeito de uma nova matriz energética, mais limpa, é uma excelente notícia para o planeta, que se vê continuamente acossado por previsões nada alvissareiras sobre o aumento de sua temperatura. Mas a principal dúvida continua de pé – os países pretendem transformar essa intenção em compromisso firme? Afinal, boas intenções não são suficientes para deter o aquecimento global.

O Estado de S. Paulo

10 Junho 2015 | 03h00

O comunicado deixa claro que os líderes do G7 têm consciência do desafio climático e reconhecem a necessidade de fazer “cortes importantes” nas emissões de gases – em especial o dióxido de carbono (CO2) – para limitar o aumento da temperatura média da Terra em 2°C até o fim do século. Além da meta de deixar de usar combustível fóssil até 2100, os líderes do G7 mostraram-se dispostos a reduzir as emissões de carbono, até 2050, de 40% a 70%, com base no total emitido em 2010, e a investir até US$ 100 bilhões até 2020 na luta contra as consequências das mudanças climáticas.

A declaração comprova a mudança de postura desses países quanto às suas responsabilidades pelo clima. Eles estão dispostos a promover mudanças significativas em suas economias para preservar o meio ambiente. No entanto, o que a declaração tem de positiva tem também de frágil, já que tudo ainda está no plano da intenção – e até mesmo as intenções ainda não são consensuais. Por exemplo, a ampla margem de redução das emissões de gases até 2050 – entre 40% e 70% – evidencia o longo caminho até se chegar a um acordo que leve à efetiva diminuição das emissões.

E o tempo é curto. A próxima grande oportunidade para um compromisso internacional em relação à redução das emissões de CO2 será em dezembro deste ano, durante a Conferência das Partes sobre Mudança Climática (COP-21), em Paris. No entanto, muitos países – incluindo o Brasil – ainda não apresentaram propostas de redução de suas emissões. A oferta de propostas é condição prévia para alcançar, na capital francesa, um novo acordo que substitua o Protocolo de Kyoto, elaborado em 1997 durante a COP-3 e que se mostrou incapaz de frear as mudanças climáticas.

Até agora, a melhor notícia continua sendo a de novembro do ano passado, quando EUA e China anunciaram um acordo no qual se comprometeram a reduzir as emissões de gás carbônico. Ainda que os termos fossem um tanto tímidos – por exemplo, os EUA prometeram reduzir entre 26% e 28% a emissão de gás carbônico até 2025 –, o acordo foi um passo importante, especialmente por seu ineditismo. Era a primeira vez que os dois maiores poluidores do mundo assumiam um compromisso de reduzir suas emissões. No caso da China, o compromisso imediato foi aumentar em 20% a participação de fontes não fósseis em sua matriz energética até 2030 e, a partir daí, reduzir suas emissões de gás carbônico.

Que essas boas notícias sejam um estímulo a que cada país encare seriamente sua responsabilidade pelo meio ambiente. Em concreto, por diminuir as emissões de CO2 e assim evitar uma elevação ainda mais forte da temperatura global. E também que cada governo não se esqueça do fracasso da COP-15, ocorrida em 2009 em Copenhague, quando não se alcançou o tão esperado acordo sobre o clima.

Não basta estar “consciente” da necessidade de redução das emissões de CO2. É preciso partir do fato de que, ainda que o planeta seja um só, os países têm realidades – e necessidades – muito díspares. Se é verdade que nenhum país pode se escusar do esforço para conter o aquecimento global, também é verdade que as obrigações de cada um devem ser muito diferentes. É preciso encarar com realismo as necessidades climáticas do planeta e, com igual realismo, as realidades de cada país.

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