De conteúdos e performances

O Brasil é, acima de tudo, o país da emoção, do espetáculo e da torcida. Em depoimento prestado no excelente documentário Uma Noite em 67 (dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil), sobre a final do 3.º Festival de Música Popular Brasileira da antiga TV Record, o organizador daqueles festivais, Solano Ribeiro, demonstrou uma franqueza madura e despretensiosa que não se vê muito em nossos meios de comunicação.

Mauro Chaves, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Em lugar de falar da revolução que aqueles festivais produziram em nossa música, cujas estrelas então surgidas ou confirmadas ainda hoje, depois de 43 anos, são nossas melhores referências na área - como Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros -, Solano confessou que apenas "queria fazer um bom programa de televisão". É claro que fez muito mais do que isso.

A emoção que despertava a disputa entre as torcidas suplantava a que resultava da qualidade real e inovadora das principais canções. As vaias e os aplausos ensurdecedores da plateia, com grupos de "torcedores" levando faixas de apoio a compositores, suas canções e intérpretes, transformava o festival de música num acirrado confronto estético-ideológico, em clima de pesada competição. Edu Lobo - o grande vencedor final, com Ponteio - disse que ali "os artistas se sentiam como cavalos de corrida", nos quais se faziam apostas.

O ponto "alto" daquele espetáculo foi a inesperada "baixaria" de Sérgio Ricardo. Reapresentando, com novo arranjo, sua composição Beto Bom de Bola, que já havia sido massacrada pelas vaias em dia anterior, a canção recebeu vaia ainda maior, que impediu o cantor de ouvir o tom dos músicos que o acompanhavam. Então, num gesto furioso e bradando "vocês venceram!", quebrou o violão e o jogou na plateia. (Pena que o documentário não mostre a manchete do dia seguinte do jornal mais sensacionalista da época, que estampava em letras garrafais: Violada no auditório)

Em nossas campanhas eleitorais, todo mundo cobra dos candidatos a apresentação de programas, projetos e planos de governo. Mas o que se quer ver, mesmo, é a emoção, é o espetáculo da disputa entre os concorrentes. Na atual campanha presidencial fala-se muito, com razão, que os debates entre os candidatos, na televisão, são os melhores momentos de aferição comparativa de suas qualidades. Propõem-se confrontos de programas em "alto nível" e abordagens de temas de real interesse da população, sem animosidades ou agressões pessoais. Muito bem. O primeiro debate, realizado na Rede Bandeirantes de Televisão, preencheu muito bem esses requisitos. Os principais temas tratados, como saúde, educação, segurança pública, infraestrutura e geração de empregos são, de fato, os assuntos principais da administração pública, por se referirem a problemas concretos que afetam, diretamente, a vida da população brasileira.

Os candidatos não trocaram frases agressivas, não desqualificaram os adversários nem tentaram lançar-lhes pegadinhas. Houve troca de críticas, sim, mas com civilidade. Apesar do nervosismo, da imprecisão de dados, dos escorregões de uns e outros(as) e do engessamento causado pelas regras do debate, houve a apresentação de bom conteúdo de interesse público.

Acontece que a generalizada avaliação, que surgiu na mídia, sobre esse primeiro debate foi no sentido de qualificá-lo de entediante, monótono, insosso, frustrante, soporífero e coisas do gênero. Os que costumam falar tanto contra o "baixo nível" parecem disfarçar o desejo real de ver candidatos desferindo bordoadas verbais, golpes "mortais" que levem adversários à lona, em situação de fulminante knock-out.

Embora já possa ter havido, no passado, um ou outro lance de derrubada de adversário num confronto direto, é o desenvolvimento cumulativo da imagem pública, pelo efeito conjunto dos debates, das entrevistas e da propaganda eleitoral na televisão e no rádio, que tem decidido a sorte das candidaturas.

Talvez os marqueteiros políticos estejam superestimando a importância da performance e subestimando a do conteúdo, no confronto dos candidatos. Vejam-se, por exemplo, os elogios à atuação do candidato do PSOL, marcada por um folclórico radicalismo anticapitalista. Certamente suas propostas seriam consideradas exageradas até na Coreia do Norte ou em Cuba - já que seriam impensáveis na China. Mas ele expressa suas utopias radicais com um misto de convicção profunda e charmosa provocação, numa eficiência de performance que suplanta quaisquer bobagens de conteúdo.

É claro que o ideal, para cada candidato, será conseguir um tipo de performance que transmita seu melhor conteúdo - especialmente nos debates e entrevistas, já que nestes não dispõe do benefício da edição, com que pode contar na produção de seu programa eleitoral gratuito. Mas entenda-se por conteúdo a qualidade de suas ideias, a organização de seu próprio raciocínio na captação do problema que está sendo tratado (ou lhe está sendo indagado), a formulação clara e inteligível das soluções sobre as quais já refletiu e se mostra preparado para executar, se vencer a eleição. Se conseguir passar isso para o público, e ainda mais com um toque (mesmo discreto) de emoção, boas serão as perspectivas nas urnas para ele.

No país da emoção, do espetáculo e da torcida, nem sempre a qualidade da performance compromete o valor do conteúdo. Naquela noite tumultuada de 1967, cheia de gritos, vaias, torcidas enlouquecidas, reações desequilibradas, misturadas com performances gloriosas, jorraram valores definitivos da arte musical brasileira. Quem sabe isso também possa ocorrer em nossa vida política, fazendo prevalecer o conteúdo real, a qualidade, o preparo próprio (não o forjado por talentosos marqueteiros) das pessoas públicas que pretendem comandar o Brasil na direção de seu melhor destino.

JORNALISTA, ADVOGADO, ESCRITOR, ADMINISTRADOR DE EMPRESAS E PINTOR. E-MAIL: MAURO.CHAVES@ATTGLOBAL.NET

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.