De novo, as enchentes

As chuvas que atingiram São Paulo na terça-feira trouxeram de volta cenas de inundações que não se viam há quatro anos na cidade. Trechos das pistas das Marginais do Pinheiros e do Tietê ficaram sob as águas, córregos transbordaram, galerias refluíram e a cidade parou, num congestionamento que somou 160 quilômetros. Também voltaram a circular o velho jogo de empurra, sobre as responsabilidades pelos efeitos das enchentes, entre as administrações atual e passadas, além de teses esdrú-xulas para a solução do problema, inclusive aquela que prega a destruição das Marginais, que voltariam a ser várzeas dos rios.

, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

É certo que as chuvas foram atípicas - nunca choveu tanto num dia de setembro. Mas é certo, também, que, mais uma vez, o que ocorreu se deveu à falta de investimento em obras de drenagem, ao crescimento desordenado que impermeabilizou o solo e à ocupação das várzeas e cabeceiras de rios e áreas de mananciais. Também contribuiu para o desastre a escassa colaboração - e, em alguns casos, displicência explícita - de algumas autoridades municipais da região metropolitana, que pouco ou nada fizeram para preservar a obra de aprofundamento da calha do Rio Tietê, um esforço do governo estadual que custou R$ 3 bilhões nos últimos 16 anos.

Entre 2002 e 2006, 10 milhões de metros cúbicos de sedimentos, rochas e todo tipo de dejetos, como pneus e fogões, foram retirados do rio, para que sua calha fosse aprofundada em 2,50 m e a sua largura ampliada de 22 metros para 46. Na conclusão do programa, o então governador Geraldo Alckmin anunciou licitação para a escolha de um consórcio que faria a manutenção da calha em regime de Parceria Público-Privada. Diante do desinteresse do setor privado, no ano passado o governo estadual assumiu sozinho os custos de manutenção da calha, que chegam a R$ 30 milhões por ano.

Desde outubro, oito retroescavadeiras retiram detritos acumulados no fundo do rio, nos 24 quilômetros entre as Barragens Edgard de Souza e da Penha. Diariamente, junto com o lixo jogado nos 64 córregos que nele deságuam, o Tietê recebe uma carga poluidora de mais de 1,1 mil tonelada de matéria orgânica e 300 toneladas de resíduos sólidos.

Como ficou comprovado na terça-feira, esse tipo de dragagem não basta. A região metropolitana de São Paulo precisa de um plano de macrodrenagem e cada município deve cumprir com a parte que lhe cabe.

A própria capital nunca seguiu de forma integral as diretrizes de um planejamento urbano eficaz e de longo prazo. Todas as tentativas acabam sendo obstruídas por poderosos interesses setoriais. E a Prefeitura nunca elaborou um plano de drenagem, essencial para uma cidade que cresceu em torno do Rio Tietê e dos córregos e riachos que formam essa parte de sua bacia.

Nos últimos anos, por exemplo, nenhum governo investiu de forma eficaz em obras de adequação das redes de águas pluviais ao crescimento e às necessidades da cidade. Na Avenida 9 de Julho, por exemplo, as galerias foram construídas há mais de 50 anos e assim permaneceram. No governo Marta Suplicy, a avenida foi totalmente renovada, do asfalto para cima, e as autoridades só se lembraram que ali existia uma galeria quando, depois da inauguração das obras na avenida, o duto cedeu, formando uma imensa cratera.

Nem sequer a limpeza pública tem merecido adequado controle da administração municipal. A atual gestão, por exemplo, contingenciou 20% do orçamento do serviço de varrição de ruas neste semestre. O prefeito Gilberto Kassab afirmou que a iniciativa não contribuiu para o agravamento das inundações de terça-feira. Nas áreas alagadas, no entanto, sacos de lixo e garrafas pet impediam o escoamento das águas.

Em entrevistas, no dia seguinte ao caos, Kassab repetiu diversas vezes considerar mais do que suficiente os gastos de R$ 903 milhões feitos em limpeza pública em 2008.

Mas, o problema maior e mais urgente, como demonstram as catástrofes meteorológicas que se sucederam nestes primeiros dias de setembro desde o norte da Argentina até São Paulo, em todos os Estados do Sul do País, é o que voltará a ser discutido em dezembro, em Copenhague: o "efeito estufa" das emissões de CO2.

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