De vazamento em vazamento

Gerou-se no País a sensação de que ninguém escapará da 'delação do fim do mundo'; essa atmosfera de apocalipse só favorece os verdadeiros arquitetos do monumental esquema de corrupção do qual a Odebrecht era um dos pilares

O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2016 | 03h00

O vazamento a conta-gotas do conteúdo das delações de executivos da Odebrecht, acerca de pagamentos feitos a mais de uma centena de políticos de vários partidos, só se presta a acelerar a desmoralização do Congresso. É preciso uma boa dose de ingenuidade para não ver aí uma ação deliberada, com vista a emparedar o mundo político, intimidando aqueles que porventura questionem promotores e magistrados, seja por seus salários e benefícios, seja por sua atitude messiânica.

A imprensa, é claro, tem o dever de publicar o que apura, ainda mais quando se trata de tema tão explosivo. Mas a ânsia de levar bombásticas informações ao público não deve se sobrepor à obrigação ética que tem o jornalista de cuidar para que essas mesmas informações sejam devidamente depuradas. Toda e qualquer informação deve ser bem apurada. Mas o material que está vindo à tona nos últimos tempos é relevante demais – pelos efeitos que produz nas vidas das pessoas e da Nação – para que mereça não mais que os cuidados de praxe.

Está claro, a esta altura, que as delações dos executivos da Odebrecht não diferenciam os políticos que receberam doações eleitorais legais daqueles que receberam propina para favorecer a empreiteira. Tudo ganha contornos ainda mais confusos quando as delações atribuem a quase todos os políticos agraciados apelidos jocosos, que induzem a imaginá-los todos como bandidos, desses que carregam alcunhas reveladoras de seus traços criminosos.

O fato de políticos eleitos pelo voto popular serem tratados como “Feia”, “Boca Mole”, “Kimono”, “Missa” e “Velhinho”, entre outros cognomes que fazem a delícia do noticiário político de baixa extração, dá a exata dimensão do tratamento desrespeitoso que os agentes ativos da corrupção dispensavam ao Congresso que pretendiam comprar. Demonstra também uma indisfarçável estratégia de desqualificação generalizada dos parlamentares, como se as empreiteiras fossem vítimas e não agentes atuantes de um sistema apodrecido, composto somente por ladravazes gerados por “condições culturais” que levavam ao erro de ter se envolvido em práticas de corrupção.

Um olhar mais demorado sobre o que veio à luz até aqui nas primeiras delações deixa claro que muitos políticos ali citados solicitaram e receberam recursos para campanhas eleitorais quando isso era perfeitamente legal. Há casos em que o executivo delator declara que alguns parlamentares, mesmo tendo recebido dinheiro, não fizeram o que o doador esperava – portanto, não podem ser acusados de corrupção.

Mesmo assim, gerou-se no País a sensação de que ninguém escapará da “delação do fim do mundo”, como se caracterizou a colaboração premiada dos 77 executivos da Odebrecht. Nem é preciso dizer que, além dos promotores que vão além de seus elogiáveis deveres e se apresentam como messiânicos salvadores da pátria, essa atmosfera de apocalipse, sob a qual se misturam culpados e inocentes, só favorece os verdadeiros arquitetos desse monumental esquema de corrupção do qual a Odebrecht era um dos pilares, isto é, os petistas ora escorraçados do poder.

Considerando-se que ainda há mais de sete dezenas de depoimentos a serem vazados – ou alguém duvida de que esse será o seu primeiro destino? –, obviamente para manter intactas as condições de temperatura e pressão da crise e, com isso, continuar desgastando o governo e o Congresso, cabe ressaltar a responsabilidade da imprensa nesse cenário.

O trabalho jornalístico em geral, mas especialmente em momentos críticos como este, deve ser pautado pelo mais absoluto respeito aos fatos, aos quais só se chega após exaustiva apuração, sem açodamento. A imprensa não pode se prestar a ser mero veículo de interesses de terceiros, pois sua função primordial é fornecer à sociedade as informações necessárias para que esta se proteja de quem pretende se aproveitar de suas fragilidades. O jornalismo de qualidade – feito de independência, sensatez e inteligência, capaz de separar o joio do trigo – é o único antídoto realmente eficaz contra o envenenamento da democracia. Ainda mais quando o veneno vem sob a forma de poção regeneradora da moral social.

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