De volta à Praça Tahrir

Os protestos no Egito contra o açambarcamento do poder pela cúpula militar desde a derrubada, há nove meses, do ditador Hosni Mubarak, ele próprio egresso da Força Aérea, entraram ontem no quarto dia - deixando dúvidas sobre a disposição das Forças Armadas de cumprir o calendário eleitoral que prevê, para a próxima segunda-feira, a primeira das três votações para a formação do Parlamento nacional. O gabinete civil renunciou.

O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2011 | 03h07

O novo ciclo de manifestações, reprimido à bala, com uma trintena de mortos e mais de 1.500 feridos graves já nos três dias iniciais, é a resposta do movimento pró-democracia - que no começo do ano fez da Praça Tahrir, no centro do Cairo, um endereço conhecido no mundo inteiro - à insistência da elite fardada, sob o comando do marechal de campo Mohamed Hussein Tantawi, em tutelar o futuro sistema político do país.

De acordo com o combinado entre representantes civis e o Conselho Supremo das Forças Armadas depois da destituição de Mubarak, um governo civil deveria ser empossado em seis meses para conduzir a transição. O ciclo eleitoral a terminar em 10 de janeiro, aberto a tantos quantos quisessem disputar as preferências dos 50 milhões de egípcios aptos a votar, deveria gerar um Legislativo de 498 cadeiras.

A sua função mais importante seria escolher a comissão de 100 membros incumbida de redigir uma nova Constituição. Já sob a égide da Carta democrática, os egípcios voltariam às urnas o quanto antes para eleger o presidente do país. Só que os militares deram o dito pelo não dito. Subordinaram a si o governo provisório. Mantiveram a agenda eleitoral, mas se concederam a prerrogativa de nomear 80 dos 100 constituintes, esvaziando clamorosamente os poderes do Parlamento, e deixaram em aberto a data da eleição presidencial.

O pior de tudo para as muitas centenas de milhares de jovens que removeram em 18 dias uma ditadura de 30 anos foi a decisão dos militares de se colocar acima das leis. Nem a Constituição nem a legislação que a ela se seguir poderão interferir na esfera militar - incluindo, entre outras coisas, o orçamento das Três Armas, as atividades econômicas sob o seu controle e a política de defesa nacional.

As Forças Armadas egípcias estão no poder desde que depuseram o carcomido rei Faruk, em 1952, para livrar a nação da herança do colonialismo britânico. Ao longo desses quase 60 anos, nenhum aspecto da vida nacional do mais populoso país árabe ficou à margem de sua influência. Friamente, faz sentido que desejem preservar a sua hegemonia nas instituições de Estado, com os privilégios e as oportunidades de corrupção a isso associados. Não é tudo, porém.

Tiveram sensibilidade política para não reprimir (salvo numa ocasião) o clamor pelo fim da era Mubarak. Mas nas academias militares - da antiga URSS às dos Estados Unidos e Reino Unido - não lhes ensinaram a conviver com a algaravia inerente à política nas democracias nascentes. Fazendo lembrar o Iraque pós-Saddam, por exemplo, mais de 70 legendas e coligações lançaram milhares de candidatos ao Parlamento do Cairo. A favorita delas assombra a junta militar. Trata-se do Partido Justiça e Liberdade (PJL), codinome eleitoral da Irmandade Muçulmana, banida no antigo regime.

Como os seus camaradas de décadas atrás na Argélia, a oficialidade secular egípcia tem horror à ideia de ver os fundamentalistas no governo, ainda que se declarem tolerantes e pacíficos. Teme que se repita no país a vitória do partido conservador islâmico Nahda nas recentes eleições tunisinas. Por via das dúvidas, a Irmandade vem agindo como bombeiro no novo ciclo de conflitos de rua, a ponto de um dos dirigentes do PJL, o moderado Mohamed Beltagy, ter sido escorraçado da Praça Tahrir pelos jovens irados - e sem comando - que agora pregam a derrubada do marechal Tantawi.

No cenário político-religioso egípcio, a Irmandade parece uma organização agnóstica perto do Partido Nour, formado pelos zelotes da seita salafista. Para se ter ideia, seus cartazes mostram apenas os candidatos homens. Mas eles não constituem uma ameaça real e presente à democratização egípcia. Os militares, sim.

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