De volta para o futuro

Em tempos cada vez mais nebulosos para a diplomacia, a posse do novo chanceler, Mauro Vieira, foi recebida como o prenúncio de boas novas. A trajetória do embaixador, cujos últimos postos foram Washington e Buenos Aires - dos mais sensíveis para a política externa brasileira -, é somente parte das credenciais que se esperam do novo ministro. Seu grande desafio, munido de reconhecida habilidade política, é convencer a presidente Dilma Rousseff de que a diplomacia é útil para seu projeto político e, portanto, deve ser valorizada.

GUILHERME CASARÕES*, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2015 | 02h03

Isso levou Vieira a defender, em seu discurso de posse, o que chamou de "diplomacia de resultados". À primeira vista, é uma resposta à expectativa do Planalto de que o Itamaraty, tendo em seu mandatário um "caixeiro-viajante", contribua para a promoção comercial do País e gere resultados econômicos de curto prazo. Mas não se trata só disso. Aqueles que conhecem a história recente da política externa brasileira rapidamente se recordaram da "diplomacia para resultados" propugnada pelo primeiro chanceler da Nova República, o empresário Olavo Setubal.

Slogans são, desde há muito, importantes instrumentos simbólicos da diplomacia brasileira. Indicam caminhos e semeiam conceitos que, idealmente, serão registrados nos livros de História. Sintomaticamente, o governo Dilma passou quatro anos sem uma marca que o caracterizasse no plano global.

Não parece trivial o fato de que o primeiro rótulo diplomático deste governo seja a reedição de algo que foi cunhado 30 anos atrás. E não se trata de saudosismo, ato falho ou falta de criatividade. Quando o assunto é política externa brasileira, há mais semelhanças entre 1985 e 2015 do que qualquer filme de ficção científica poderia supor, com o perdão do inevitável anacronismo das comparações históricas e das óbvias diferenças entre o Brasil e o mundo de ontem e de hoje.

No tocante às prioridades diplomáticas, Estados Unidos e Argentina voltam ao topo da agenda. O desgaste nas relações bilaterais com os norte-americanos levou Tancredo Neves, já eleito, a uma missão diplomática a Washington para desobstruir os canais de diálogo, emperrados pela dívida externa e pelas leis protecionistas nacionais. Atualmente, os problemas vêm-se acumulando desde os desencontros relativos a Honduras e ao Irã, ainda no governo Lula, atingindo seu ápice no escândalo da espionagem realizada pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

Embora as condições atuais sejam mais alvissareiras, uma lição do passado não deve ser esquecida. O entusiasmo inicial, que coincide com o novo mandato, pode murchar rapidamente se não for devidamente nutrido. Foi o caso do governo Sarney, durante o qual as relações com os Estados Unidos, a despeito de todo o esforço, atingiram um ponto crítico lá pelos idos de 1987. Agora, o governo Barack Obama parece querer reaproximar-se do Brasil. Mesmo que o pedido de desculpas esteja vindo em doses homeopáticas, já é o bastante para tomarmos a dianteira de uma parceria que é fundamental para nós.

A Argentina também retorna ao centro das nossas preocupações diplomáticas, na medida em que passa por uma crise financeira que pode pôr em risco o futuro do já combalido Mercosul. Se, no alvorecer da Nova República, os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín davam os primeiros passos para a integração Brasil-Argentina, intensificando laços diplomáticos e comerciais, o desafio corrente é de outra natureza: repensar o condomínio brasileiro-argentino que sustenta o bloco regional.

Não é tarefa simples. O Mercosul é um dos sustentáculos de nossa liderança regional e seu funcionamento depende de um delicado alinhamento político e econômico com a Argentina. A despeito do bom relacionamento entre as presidentes Dilma e Cristina Kirchner e a força dos canais diplomáticos, não se pode prescindir de um amplo diálogo entre governos e setores econômicos e sociais para resgatar o sentido estratégico do comércio entre os dois vizinhos. Uma das variáveis a considerar é a China, cuja aproximação com o Brasil se consolidou 30 anos atrás e que atualmente ameaça, com seu comércio, a posição brasileira em nossa própria região.

Quanto à estrutura e ao funcionamento da carreira diplomática, uma coincidência entre os dois períodos chama a atenção. Setubal herdou um ministério com dificuldades de três ordens: necessidade de cortes orçamentários diante do grave desequilíbrio fiscal; falta de legitimidade de algumas decisões de política externa em função de divergências interministeriais (sobretudo entre Itamaraty e Ministério da Fazenda); e distorções na carreira que comprometiam o trabalho diplomático e a motivação dos servidores.

Com poucas adaptações, o cenário é muito semelhante ao que temos hoje. Mauro Vieira assumiu a Chancelaria com o objetivo declarado de enfrentar os gargalos que assolam o Itamaraty, no contexto do esvaziamento a que foi submetido nos últimos quatro anos. Ao dedicar parte significativa de seu discurso inaugural à necessidade de valorização da diplomacia, o novo ministro sinaliza que dispõe de vontade política para atrair recursos, hoje escassos, para sua pasta - quem sabe até engajando a presidente da República no ofício diplomático, pelo qual ela nunca nutriu grande interesse.

Por isso mesmo, a ideia da "diplomacia de resultados" foi uma jogada sábia do ministro. Busca recuperar, a um só tempo, a confiança da chefe e a motivação dos colegas. Não se poderia esperar nada muito diferente de alguém que, quando jovem secretário, passou a frequentar os círculos dos mais habilidosos políticos da geração que construiu a Nova República.

*DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA, ENSINA RELAÇÕES INTERNACIONAIS NAS FACULDADES RIO BRANCO, ESPM E FGV

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