Década perdida

Exportação de produtos industrializados brasileiros vem sofrendo queda acentuada

*RUBENS BARBOSA, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 03h00

De acordo com recente trabalho do Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada (Ipea), coordenado por Fernando Ribeiro, nos últimos anos houve uma significativa perda da posição relativa dos produtos industrializados nas exportações brasileiras. Em 2017, o volume exportado desses bens ficou 0,7% abaixo do quantum de 2008. A porcentagem das vendas totais leva em conta o valor exportado. 

Em 2000, a participação dos industrializados era de 74,5% no total das exportações nacionais e de 51,3% em 2017. Nesse mesmo período, a exportação de produtos primários aumentou acima de 60%, passando de 22,8% em 2000 para 46,4% em 2012. Como consequência, não é de surpreender que a participação dos industrializados brasileiros no mercado global se tenha reduzido para 0,75% em 2016. A queda é ainda mais acentuada quando se desconta o efeito dos preços relativos, ou seja, a relação entre os preços das exportações brasileiras e as cotações das exportações mundiais.

Esses dados são coerentes com a tendência de queda acentuada da participação da indústria no produto interno bruto (PIB) nacional, de mais de 25% no final da década de 1980 para ao redor de 10% em 2017.

Levando em conta a diversificação do nosso parque industrial e, sobretudo, sua capacidade de criar empregos, não se pode adiar por mais tempo a definição de políticas para reindustrializar o País, modernizando os setores mais competitivos e definindo uma estratégia para ampliar mercados para os produtos nacionais. Num primeiro momento, a recuperação da indústria poderá ser feita com a ocupação da capacidade ociosa, que se encontra hoje em cerca de 30%, e depois com investimento em inovação e tecnologia. 

Uma agenda de modernização e de competitividade deve ser discutida para ser implementada a partir de 2019. O atual governo lançou um plano visando a acelerar a migração de empresas para as formas mais modernas da indústria 4.0, com o emprego de tecnologias avançadas, como inteligência artificial, impressões 3D, computação em nuvem e internet das coisas (chips embarcados em produtos no chão da fábrica). Pesquisas recentes mostram o isolamento e o atraso em que o setor industrial se encontra. Cerca de 30% dos empresários do setor nunca ouviram falar em indústria 4.0 e menos de 2% da indústria está na quarta revolução industrial.

A questão da perda da competitividade dos produtos manufaturados brasileiros deve ser colocada dentro de uma perspectiva mais ampla. Como pano de fundo, deve-se reconhecer que a América do Sul está na periferia das transformações econômicas e tecnológicas, distante dos principais centros dinâmicos de comércio (Ásia). Em contrapartida, está mais perto dos Estados Unidos, com uma agenda conflitiva e restritiva em comércio exterior, com as enormes incertezas “trumpianas” pelos próximos anos. 

Não houve renovação do pensamento estratégico no âmbito de grande parte do governo e dos empresários. Ainda estão presos a conceitos e percepções superados, como se verifica na discussão acerca da manutenção de incentivos para a indústria automobilística, proibidos pelas regras internacionais, no momento em que a Organização Mundial do Comércio (OMC) questiona a política industrial para o setor. 

Como inserir o Brasil nessa nova ordem internacional em mutação, com novos conceitos e maneiras de ver o que está acontecendo ao nosso redor? Pouco se discute sobre isso. Enfrentar o desafio de encontrar seu lugar no mundo, compatível com o papel que deve desempenhar como uma das dez maiores economias globais, não pode mais ser adiado. Urge a definição de nossos reais interesses. O que queremos do novo sistema internacional? Como reindustrializar o País em meio às grandes transformações na produção, resultado das rápidas inovações? Como recuperar a competitividade dos produtos industriais? 

Ao discutir o que queremos para o Brasil no novo cenário internacional, teríamos de examinar, em especial, como integrar o País nos fluxos dinâmicos da economia global e de comércio exterior, o que significa discutir como fazer a abertura da economia e melhorar sua competitividade. Significa também acelerar as negociações de acordos comerciais e definir políticas para a integração das empresas nas cadeias produtivas de valor em nível global e regional, incluindo uma reforma tarifária para eliminar as distorções existentes. A perda de competitividade do setor industrial pode ser avaliada quando se sabe que, apesar da capacidade instalada, a indústria automobilística só exporta significativamente para a Argentina e para o México, com acordos de comércio administrado entre as montadoras.

A Câmara dos Deputados, na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços, vai realizar audiência pública para discutir a abertura comercial do Brasil como forma de promoção do desenvolvimento econômico do País. Será uma boa ocasião para aprofundar uma discussão objetiva, longe das obsessões ideológicas, sobre essa e outras matérias que permitirão à indústria retomar o caminho do crescimento e da criação de empregos.

De grande relevância para o comportamento da economia nacional nos próximos anos, todos esses temas deveriam estar presentes nos debates da campanha eleitoral para a Presidência. A sociedade brasileira vai decidir que modelo de desenvolvimento será implementado na próxima década. Vamos apoiar uma agenda de modernização em todos os setores, acompanhando o que acontece no mundo, ou vamos respaldar uma visão que privilegiará o mercado interno, o retrocesso nas reformas aprovadas até aqui, ou seja, na contramão da História, optar pela proteção da ineficiência?

Com a palavra o eleitor.

*PRESIDENTE DO CONSELHO SUPERIOR DA COMÉRCIO EXTERIOR (COSCEX) DA FIESP

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