Déficit de confiança

Se é nos momentos de dificuldades que se conhece a qualidade de um governo, o de Dilma Rousseff parece disposto a frustrar a população. Diante do agravamento do cenário internacional, com efeitos notáveis na atividade econômica interna, seu esforço tem sido o de tentar mostrar que tudo vai bem e que haverá recursos mais do que suficientes para assegurar os investimentos necessários ao crescimento. Sua próxima iniciativa será a liberação de R$ 10 bilhões do Tesouro Nacional para reforçar as linhas de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O Estado de S.Paulo

24 Maio 2012 | 03h11

Mas o que falta não é tanto dinheiro nem muito menos planos. O que falta é um fator indispensável para o empresariado iniciar projetos de médio e de longo prazos: confiança no desempenho da economia no futuro próximo. Essa confiança poderia ser reconstruída com ações concretas que, num momento de dificuldades, o governo tem condições de realizar e que atendem aos interesses do País: a aceleração dos investimentos públicos em infraestrutura, para eliminar os obstáculos ao crescimento.

Nada disso, porém, está sendo feito com a velocidade e a eficiência necessárias. Em vez de agir, o governo tenta disseminar um otimismo cada vez mais descolado da realidade. Não faz muito tempo, a presidente Dilma Rousseff afirmou que a taxa de investimentos no Brasil deverá passar dos 19,5% do PIB registrados no ano passado para 24% ou 25%. Isso asseguraria o crescimento rápido e contínuo da economia. Mas a taxa de investimentos pode cair em 2012.

Há indícios de que a capacidade instalada da indústria está encolhendo, pois, mesmo produzindo menos, ela está utilizando mais intensamente suas instalações. Outro indício de queda de investimentos, levantado pela economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria Integrada, e publicado pelo Estado (21/5), refere-se ao consumo aparente de bens de capitais (resultado da produção local mais importações, subtraídas as exportações), que caiu 4,5% no primeiro trimestre. Ela estima que a taxa de investimentos diminuiu 3,1% no primeiro trimestre em relação ao último trimestre de 2011.

O agravamento dos problemas internacionais está levando empresas de setores vitais para o desempenho da economia a paralisar planos de expansão. Se os gastos do governo fossem mais eficientes e resultassem em melhores condições para a atividade produtiva, haveria um estímulo para os investimentos privados. Mas o governo do PT tem notória dificuldade para administrar os programas de investimentos, de que resultam projetos de baixa qualidade e atraso na liberação de recursos.

Tudo isso se soma a velhos problemas estruturais da economia brasileira, como o sistema tributário excessivamente oneroso e complexo, uma legislação trabalhista que impõe às empresas custos exagerados para a contratação formal de trabalhadores e a infraestrutura precária, o que eleva os custos operacionais.

Para mostrar que não deixará faltar recursos para o setor produtivo, o governo ampliou de R$ 30 bilhões para R$ 45 bilhões o total que o Tesouro Nacional colocará à disposição do BNDES para o financiamento, a juros subsidiados, de capital de giro e programas de investimentos das empresas. O início do repasse desses recursos para o BNDES, como parte da segunda fase do Plano Brasil Maior, foi acertado na semana passada pelo ministro Mantega e pelo presidente da instituição, Luciano Coutinho. Em junho, o banco receberá R$ 10 bilhões e, no segundo semestre, mais R$ 10 bilhões. O restante ficará para 2013, pois o próprio banco avalia que não precisará neste ano do total que foi colocado à sua disposição.

O resultado da soma de todos os fatores que geram desconfiança no empresariado não poderia ser diferente do apontado ao Estado pelo economista Samuel Pessoa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas: "A demanda por investimento despencou".

No momento em que deveria concentrar-se em aumentar seus investimentos e compensar ainda que parcialmente a retração do setor privado, o governo tenta estimular o consumo, com as medidas como as anunciadas há dias. Assim, não dará certo.

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