Déficit de liderança

Os governos têm menos munição que em 2008-2009 para enfrentar a nova fase da crise financeira, advertiu a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde. Há três anos, houve dinheiro para conter a quebradeira dos bancos, salvar indústrias e atenuar as consequências do colapso econômico. A ação governamental, em vários países, foi muito além dos limites habitualmente aceitos. O Tesouro americano virou acionista de empresas privadas e o Reino Unido reviveu os velhos tempos do capitalismo de Estado. Para isso os governos aumentaram seus gastos, acumularam déficits e endividaram-se muito além dos limites da prudência. Alguns já carregavam dívidas enormes, mas conseguiam refinanciá-las a custo baixo. Essa possibilidade não existe mais. A saída da crise, disse Lagarde, é mais estreita que há três anos. E, como disse a presidente Dilma Rousseff, agora a solução depende da qualidade da ação política: requer ousadia, liderança e capacidade de coordenação e de mobilização. Convertidos em artigos de primeira necessidade, esses itens parecem estar em falta.

O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2011 | 03h06

Há um ano o ex-diretor-gerente do FMI Dominique Strauss-Kahn já lamentava o afrouxamento da cooperação internacional para o enfrentamento da crise. A pior fase da crise foi superada, em 2008-2009, em grande parte graças à coordenação de políticas. Os principais problemas foram atacados simultaneamente nos EUA e na Europa. Os governos conduziram ações de salvamento sem dar grande atenção a restrições ideológicas, e os bancos centrais operaram com harmonia, cortando juros, criando liquidez e socorrendo o setor privado.

A coordenação diminuiu sensível e perigosamente, passado o momento de maior perigo. Houve algum esforço de ação conjunta na zona do euro a partir da eclosão da crise grega. Uma operação de socorro foi montada com participação da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do FMI. Embora discreta, a ação de Strauss-Kahn foi importante. Ele dispunha de recursos técnicos invejáveis, transitava com facilidade em todos os meios políticos e tinha um importante papel na definição da agenda comum dos países do G-20. Mas o próprio G-20 perdeu eficácia como formulador da pauta global, quando os políticos, passado o perigo imediato, voltaram para as disputas internas de cada país e para suas preocupações eleitorais.

A grande pauta de ajuste global, no entanto, ainda é aquela preparada nos melhores tempos do G-20 e isto, de certa forma, resume os problemas atuais. A agenda incluía três grandes linhas de ação. Países deficitários e superavitários nas contas externas deveriam mudar suas estratégias de crescimento. Os EUA conteriam a expansão do consumo, poupariam mais e aumentariam as exportações. A China faria o contrário. Isso não ocorreu, em grande parte porque as mudanças anunciadas pelo governo chinês têm avançado muito lentamente - quando avançam. O segundo grande compromisso envolvia a correção dos desajustes fiscais. Pouco se avançou. Em vários países desenvolvidos ocorreu o contrário. Os buracos orçamentários cresceram e as dívidas atingiam níveis alarmantes. A crise das dívidas soberanas, na Europa, é o resultado dessa trapalhada. A terceira grande tarefa deveria ser a reforma financeira, com a adoção de padrões de segurança mais rigorosos para os bancos e maior capitalização. Também nesse caso houve pouquíssimo progresso.

O cenário seria menos perigoso se tivesse havido apenas atraso na realização dessa agenda. Mas houve o agravamento dos problemas. A pauta continua válida e agora os governos têm de tentar cumpri-la em condições muito piores e com sacrifícios muito maiores. Sem coordenação, tudo será mais difícil, porque o jogo, agora, envolve riscos mais graves, como, por exemplo, a integridade da zona do euro. Isso adiciona a problemas já complexos da velha agenda o desafio adicional da liderança e da articulação. Quando a política fracassa no tratamento das mais graves questões nacionais, como nos EUA e em alguns países europeus, sobram pouquíssimos motivos para otimismo.

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